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Personagem

Emília

Quem é

Emília é a mulher de Iago e a camareira de Desdêmona, a quem chama de senhora e de ama. Acompanha a senhora de Veneza a Chipre, aproxima-a de Cássio quando ele pede ajuda e, na cena 3 do Ato III, acha o lenço que Desdêmona deixou cair e o entrega ao marido, que lhe pedira cem vezes que o furtasse, sem saber o que ele fará. Cala-se sobre o lenço diante da senhora, ouve o ciúme de Otelo crescer sem entendê-lo e, só diante do cadáver, fala. Revela o lenço, desmascara o marido e morre apunhalada por ele, cantando o verso do salgueiro.

Trajetória

Na cena 1 do Ato II, desembarca em Chipre com Desdêmona e Iago, e Iago a trata, junto com as outras mulheres, em dísticos de taberna. Ela retruca: diz que ele tem poucas razões para falar assim e que não quer os elogios dele. No solilóquio que fecha a cena, Iago confessa suspeitar, sem confirmação, que o próprio Otelo se deitou com ela.

Na cena 1 do Ato III, Cássio manda o palhaço pedir uma entrevista a Emília e depois pede a Iago acesso a Desdêmona. Emília chega, conta que a senhora já defende Cássio junto ao general e o leva a um lugar onde possa falar a sós com ela. Na cena 3 do Ato III, está na sala quando Desdêmona promete interceder, e é ali, depois que Otelo e Desdêmona saem, que acha o lenço, o primeiro presente de Otelo, que a senhora carregava para beijar e conversar com ele. Diz que vai mandá-lo copiar e entregá-lo a Iago, e acrescenta que só os céus sabem o que ele fará com ele. Quando Iago chega, ela quer saber o que vai receber em troca. Entrega o lenço, pergunta para que ele serve e é mandada embora.

Na cena 4 do Ato III, Desdêmona pergunta onde perdeu o lenço e Emília responde que não sabe. Desdêmona diz que o Mouro é um espírito reto, sem as baixezas dos ciumentos, e Emília pergunta se ele é ciumento. Depois que Otelo sai, ela resume o que pensa dos homens: revelam-se em um ano ou dois, são só estômagos e devoram as mulheres como comida.

Ela fala sem saber que descreve o próprio casamento.

Na cena 2 do Ato IV, Otelo a interroga, e ela jura nada ter visto nem ouvido de mau na senhora e aposta a alma nisso. Ele a trata como cafetina e lhe deixa uma moeda. Mais tarde, diante de Iago, ela diz que algum biltre torpe manipulou o Mouro e pede que o céu açoite essa corja. Iago manda que fale baixo, e ela responde que um sujeito desses também lhe virou a cabeça e o fez suspeitar dela com o Mouro. Ele a chama de imbecil. Na cena 3 do Ato IV, despe a senhora, estende os lençóis nupciais e, diante da pergunta de Desdêmona sobre trair o marido por tudo o que há no mundo, diz que a culpa é dos maridos:

Emília inverte a culpa da traição: Mas eu acho que a culpa é toda dos maridos / Se as mulheres traem. (IV.3, v. 101)
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro

Na cena 1 do Ato V, chega depois do ataque na rua escura, é mandada por Iago saber de Cássio e depois à cidadela, e xinga Bianca de rameira. Na cena 2 do Ato V, está no quarto quando Desdêmona diz que morre sem culpa. Ao ouvir de Otelo que foi Iago quem acusou a senhora, nega a calúnia e diz que o marido vive da mentira. Quando Montano, Graciano e Iago chegam, Iago manda que ela se cale e vá para casa. Ela não obedece: diz que é apropriado obedecê-lo, mas não agora. Chama Otelo de Mouro obtuso e conta o que sabe:

É Emília quem entrega a peça central do enredo: Eu o achei por acaso e dei ao meu marido, (V.2, v. 230)
Ato V: A emboscada, o assassinato e a revelação

Iago a apunhala e foge. Ela pede que a deitem ao lado da senhora, canta o verso do salgueiro, diz a Otelo que Desdêmona era casta e o amava, e morre.

Temas que encarna

O longo discurso de Emília na cena 3 do Ato IV consta do Fólio e falta no Quarto, e é verso onde ela vinha falando em prosa. O tradutor o lê como reivindicação do desejo feminino, não como ironia.

A mesma Emília que entrega o lenço sem pensar no que ele vale, e que responde que não sabe quando a senhora pergunta onde o perdeu, é a que recusa, na cena 2 do Ato V, a ordem do marido de calar. O tradutor observa que os limites da obediência conjugal, que as homilias da época tratavam como irrestrita, são testados por ela nessa frase.

Desdêmona morre protegendo o marido com a última mentira. Emília morre pelo movimento contrário, quando fala contra o próprio marido. A peça põe as duas respostas à autoridade conjugal lado a lado.

É a resposta de Emília que resolve o enredo.

A culpa de Emília é a mais discreta da peça: ela entrega o lenço, mente uma vez a Desdêmona ("Não sei, minha senhora", III.4, v. 24) e se cala, e a omissão faz a trama andar. Por isso o discurso da cena 3 do Ato IV, em que ela descreve sem saber o próprio casamento e fala do desejo, é também a medida do que a peça lhe concede: uma voz clara, que só chega ao alto quando já não há o que salvar. A Verdade e mentira que a peça trata como arma de Iago encontra nela o contrapeso, alguém que decide pagar o preço de dizê-la.

Relações

  • Iago: o marido, que lhe pede o lenço cem vezes, a manda calar, a apunhala e é desmascarado por ela.
  • Desdêmona: a senhora, que ela serve, despe, defende e a quem canta no fim.
  • Otelo: o general, que a interroga e a paga como cafetina, e a quem ela chama de Mouro obtuso quando sabe da verdade.
  • Cássio: o tenente que ela leva até Desdêmona na cena 1 do Ato III.
  • Rodrigo: o pretendente que Iago leva a Chipre e mata, e cuja morte ela ouve de Iago na cena 1 do Ato V.