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Hamlet

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Quando e para quem a peça foi escrita

William Shakespeare escreveu Hamlet por volta de 1600, para a companhia de atores de que era sócio, os Homens do Lorde Camareiro, que tinham acabado de inaugurar o teatro do Globo, na margem sul do Tâmisa, em Londres. O primeiro Hamlet foi Richard Burbage, o grande ator da companhia, e uma tradição antiga diz que o próprio Shakespeare fazia o papel do Espectro. A plateia era mista: aprendizes e comerciantes de pé diante do palco, gente mais rica nas galerias. Havia lugar para todos esses públicos: a peça alterna o verso dos reis com a prosa dos coveiros e as piadas de Hamlet.

Era também uma Inglaterra preocupada com a sucessão. A rainha Elizabeth I, que reinava desde 1558, estava velha, não tinha filhos e não apontava herdeiro; morreu em 1603. Uma peça sobre um trono que passa do irmão morto ao irmão vivo, e não ao filho, falava de um medo do momento. Na cena 2 do Ato V, Hamlet diz que Cláudio se meteu entre a eleição e as esperanças dele: a monarquia da Dinamarca era de fato eletiva, e o príncipe não herdava a coroa automaticamente.

De onde veio a história

O enredo é antigo. Por volta de 1200, o cronista dinamarquês Saxo Gramático contou a história de Amleth, um príncipe que se finge de louco para vingar o pai, morto pelo tio que casou com a mãe. No século XVI, o francês François de Belleforest recontou a história numa coletânea de narrativas trágicas. Antes da peça de Shakespeare, Londres já tinha visto outro Hamlet, hoje perdido, em que um fantasma gritava "Hamlet, vingança!", segundo uma lembrança da época.

O gênero também já existia: a tragédia de vingança, popular desde A Tragédia Espanhola, de Thomas Kyd, nos anos 1580. O público conhecia as regras: um fantasma que pede vingança, a loucura fingida, uma peça encenada dentro da peça e um final com quase todos mortos. Hamlet usa todos esses elementos, mas põe no centro o que o gênero costumava pular: a dúvida de quem tem de vingar. Por isso o herói adia, e o público, que esperava ação, ouve um homem pensando.

A religião de um reino em mudança

A Inglaterra de Shakespeare tinha rompido com Roma havia pouco mais de sessenta anos, e a Igreja da Inglaterra negava o purgatório, que a fé católica ensina. Quando o Espectro conta, na cena 5 do Ato I, que está condenado por um tempo a arder até que os crimes de sua vida sejam purgados, porque morreu sem os últimos sacramentos, ele fala a língua de uma doutrina que a plateia aprendera a recusar. Ao mesmo tempo, Hamlet e Horácio estudam em Wittenberg, a universidade onde Lutero começou a Reforma, em 1517. A dúvida do príncipe sobre se o fantasma é o pai ou um demônio tinha, para aquele público, um peso religioso real.

Três textos para uma peça

Hamlet chegou até nós em três versões antigas: uma edição curta de 1603, chamada Primeiro Quarto; uma bem mais longa de 1604, o Segundo Quarto; e a do Primeiro Fólio, o volume com as peças reunidas que dois colegas de Shakespeare publicaram em 1623, sete anos depois da morte dele. As três diferem em centenas de pontos, e algumas passagens só existem numa delas, como o comentário sobre as companhias de meninos atores que disputavam o público de Londres, na cena 2 do Ato II. Os textos que se leem hoje combinam essas versões. Hamlet é a mais longa das peças de Shakespeare: encenada inteira, passa de quatro horas.

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