O tema na obra
A loucura entra na peça como projeto. No fim do Ato I, Hamlet pede aos amigos que não denunciem o fingimento que vai adotar, e na cena 1 do Ato II o primeiro sinal chega por relato: Ofélia conta ao pai que o príncipe apareceu desgrenhado, apertou-lhe o pulso, suspirou e saiu sem tirar os olhos dela. Lacerda vê no relato um truque que a peça já usara com o Espectro, o horror contado e não mostrado, de modo que cada espectador compõe a sua imagem do príncipe delirante. Polônio conclui que é loucura de amor.
Na cena 2 do Ato II, o fingimento serve para dizer verdades a Polônio e aos amigos sem ofender ninguém, e Hamlet arranca de Rosencrantz e Guildenstern a confissão de que foram chamados para sondá-lo. Na cena 1 do Ato III, a dureza com que trata Ofélia basta para que Cláudio veja que aquilo não é amor, e ele deixa de crer na hipótese de Polônio, que segue falando em amor rejeitado. Na cena 4 do Ato III, diante da mãe, Hamlet nega que seja loucura e propõe um teste: ele repetirá palavra por palavra o que a loucura teria medo de dizer.
Na cena 1 do Ato IV, Gertrudes usa a loucura como escudo e descreve o filho a Cláudio como louco feito o mar e o vento quando lutam, para protegê-lo. Na cena 2 do Ato IV, Hamlet responde por enigmas a Rosencrantz e Guildenstern, e chama um deles de esponja que o rei espreme quando precisa. Na cena 5 do Ato IV, a loucura muda de dono: Ofélia, que obedecera calada ao pai e ao irmão, enlouquece de verdade e passa a falar por canções, provérbios e flores. Para Lacerda, a loucura de Hamlet era calculada e a de Ofélia é descontrolada e, ao mesmo tempo, poética, e Laertes percebe que há mensagens no desvario.
As duas loucuras funcionam em sentidos opostos. A de Hamlet é uma máscara que lhe dá licença para dizer o que não poderia, e a de Ofélia é o que sobra quando a máscara da obediência cai e já não há outra. Uma dá voz a quem escolhe falar, a outra dá voz a quem nunca teve, e é por isso que só a segunda comove a corte e só a primeira a engana.
Onde aparece
- cena 1 do Ato II: o relato de Ofélia sobre o príncipe desgrenhado e a conclusão de Polônio.
- cena 2 do Ato II: a loucura fingida serve para dizer verdades a Polônio e aos amigos.
- cena 1 do Ato III: o tratamento duro de Ofélia leva Cláudio a descartar a hipótese de loucura de amor.
- cena 4 do Ato III: Hamlet nega diante da mãe que esteja louco.
- cena 1 do Ato IV: Gertrudes descreve o filho como louco para protegê-lo.
- cena 2 do Ato IV: Hamlet responde por enigmas a Rosencrantz e Guildenstern.
- cena 5 do Ato IV: a loucura de Ofélia e a chegada de Laertes.
Passagens
Polônio e a isca da mentira.
Vedes como, com a isca da mentira, / Pescastes o peixe da verdade?(II.1)
A loucura que Gertrudes descreve ao rei.
Louco feito o mar e o vento, quando lutam / Para saber quem é mais forte(IV.1)
O enigma sobre o corpo e o rei.
O corpo está com o rei, mas o rei não está com o corpo.(IV.2)
Uma das falas mais lúcidas da peça, dita por Ofélia enlouquecida.
sabemos o que somos, mas não o que podemos ser(IV.5)