Quem é
Hamlet é o príncipe da Dinamarca, filho do rei morto e de Gertrudes, sobrinho e enteado de Cláudio. É estudante em Wittenberg, que o rei quer manter em Elsinore, e está de luto pelo pai quando a corte já festeja o casamento da mãe. Ao receber de O Espectro a ordem de vingar o assassinato, passa a peça entre o fingimento de loucura, a dúvida sobre o que o espectro realmente é, a busca de uma prova e o adiamento do golpe, até que a vingança se cumpre quando a sua própria vida já está perdida. Morre no duelo, depois de matar Cláudio, e deixa a Fortimbrás o trono e a Horácio o encargo de contar a sua história.
Trajetória
Na cena 2 do Ato I, Cláudio lhe pede que abandone o luto e fique em Elsinore, sem voltar a Wittenberg, e a rainha insiste. Hamlet cede só à mãe, e sozinho lamenta a pressa do casamento. A distância entre o que sente e o que mostra já está no que ele responde à corte:
Tenho dentro de mim o que vai além da aparência; / Estes são apenas os trapos e anúncios da decência(I.2)
Na cena 4 do Ato I, na muralha, ele segue o Espectro, e puxa a espada para que os amigos o deixem livre. Na cena 5 do Ato I, ouve o pai revelar o veneno despejado no ouvido no pomar e jura lembrar. Faz Horácio e Marcelo jurarem silêncio sobre a espada, com a voz do Espectro ecoando do subterrâneo, e pede que não denunciem o seu fingimento futuro.
Na cena 1 do Ato II, aparece a Ofélia desgrenhado, aperta-lhe o pulso, suspira e sai sem tirar os olhos dela. Na cena 2 do Ato II, zomba de Polônio, arranca de Rosencrantz e Guildenstern a confissão de que foram chamados, pede aos atores a fala sobre Pirro e Príamo e a peça O assassinato de Gonzago. Sozinho, censura a própria inação e decide testar o rei pelo teatro.
Na cena 1 do Ato III, fala sozinho sobre viver e morrer e depois trata Ofélia com dureza, mandando-a para um convento. Na cena 2 do Ato III, pede a Horácio que vigie o rosto do rei durante a cena do envenenamento, e a reação de Cláudio o convence da culpa. Na cena 3 do Ato III, encontra o rei de joelhos, ergue a espada e desiste: matá-lo rezando seria mandá-lo ao céu. Na cena 4 do Ato III, atravessa a cortina com a espada, convencido de que mata o rei, e mata Polônio. Depois censura a mãe diante dos retratos dos dois maridos, vê o Espectro, que só ele vê, e sai arrastando o corpo.
No Ato IV ele está sempre a caminho de outro lugar. Na cena 2 do Ato IV e na cena 3 do Ato IV, responde por enigmas sobre o corpo de Polônio e é embarcado para a Inglaterra. Na cena 4 do Ato IV, encontra o exército de Fortimbrás e se censura a sós:
Como fico eu, então, / Que tenho o pai assassinado, a mãe desonrada, / Fortes estímulos da razão e do sangue, / E deixo estar?(IV.4)
Na cena 6 do Ato IV, a carta a Horácio conta que um navio pirata atacou o seu, que ele foi o único tomado prisioneiro e que os piratas o trataram com generosidade.
Na cena 1 do Ato V, no cemitério, pensa na morte que iguala poderosos e mendigos e, ao saber pelo coveiro que uma das caveiras é a de Yorick, o bobo do pai, fica abalado. Quando Laertes salta na cova de Ofélia, revela-se e pula atrás dele, e os dois lutam. Na cena 2 do Ato V, conta a Horácio que trocou no navio a carta que ordenava a sua morte por outra, que condena Rosencrantz e Guildenstern. Ao responder a Horácio antes do duelo, a posição é outra:
Há um toque da Providência na queda de um pardal [...] Estar pronto é a única solução. Seja o que for!(V.2)
Ferido pela espada envenenada, Hamlet crava a lâmina em Cláudio e o faz beber o vinho, pede a Horácio que conte a sua história, ouve os canhões de Fortimbrás, indica-o como sucessor, diz que o resto é silêncio e morre.
Temas que encarna
No monólogo do Ato II, Hamlet se censura diante do ator que chora por Hécuba sem motivo, e na planície, no Ato IV, se censura de novo diante de Fortimbrás, que marcha por um pedaço de terra sem valor. Lacerda lê no monólogo do Ato II o acúmulo das razões do adiamento: a repulsa a matar com as próprias mãos, a exigência de prova numa corte em que a justiça pertence ao rei, a necessidade de testar o que o fantasma diz, já que pode ser o demônio, e o dilema entre agir e refletir.
O fingimento de loucura é anunciado por ele na cena 5 do Ato I e usado na cena 2 do Ato II para dizer verdades a Polônio e aos amigos sem ofender ninguém, e a loucura de Ofélia, no Ato IV, é lida por Lacerda em contraste com a dele: a de Hamlet é calculada, a dela, descontrolada e ao mesmo tempo poética.
Lacerda lê o Hamlet que volta à Dinamarca como outro homem: já não vê a morte como mal nem como fuga, mas como destino comum de todos, aceita que uma divindade rege os acontecimentos e age por intuição, sem os escrúpulos que o paralisavam. A virada, nota Lacerda, acontece fora de cena, na viagem, e o gesto que a mostra é cruel: mandar Rosencrantz e Guildenstern à morte.
O Hamlet do Ato V não responde à pergunta do Ato IV, ele a deixa de lado. Onde antes buscava um motivo bastante para agir, agora aceita estar pronto, e a vingança só se cumpre quando já não resta tempo de escolher.
Relações
- Cláudio: o tio e padrasto que, segundo o Espectro, matou o pai. Hamlet o testa pela peça, poupa-o rezando e só o mata no fim, no duelo armado por ele.
- Gertrudes: a mãe, a quem o Espectro pede que seja poupada. Hamlet a confronta no quarto, diante dos retratos dos dois maridos.
- O Espectro: o pai, que o convoca à vingança e reaparece na cena 4 do Ato III.
- Ofélia: a moça que ele cortejou. Trata-a com dureza na cena 1 do Ato III, volta a provocá-la na cena 2 do Ato III e só a reencontra no enterro.
- Polônio: o pai de Ofélia, que o espia. Hamlet o mata por engano atrás da tapeçaria.
- Laertes: o filho de Polônio, que vê nele o vilão por ter matado o pai e se une a Cláudio no duelo.
- Horácio: o amigo a quem confia a vigília, o plano e, no fim, a história.
- Fortimbrás: o outro filho com um pai a vingar, que marcha pela Dinamarca no Ato IV e reivindica o trono no fim.