O que é
O jardim abandonado que Hamlet vê no mundo no primeiro monólogo, um jardim que se multiplica, possuído pelas coisas podres e grosseiras da natureza. A imagem se desdobra no pomar onde o rei velho dormia quando foi envenenado, no "algo de podre" que as sentinelas sentem no reino e no pedido de Hamlet à mãe para que não derrame o estrume sobre o capim.
Onde aparece
Na cena 2 do Ato I, sozinho, Hamlet lamenta a pressa do casamento da mãe e compara o mundo a um jardim abandonado, tomado pelo que há de podre e grosseiro. Antes, a corte reunida sob Cláudio mostrou o contrário: um discurso medido, o pedido de que o luto acabe e a aparência de ordem.
Na cena 4 do Ato I, ao ver Hamlet sumir atrás do O Espectro, Marcelo diz que há algo de podre no reino da Dinamarca.
Há algo de podre no reino da Dinamarca(I.4)
Na cena 5 do Ato I, o Espectro conta que dormia no pomar, hábito das suas tardes, quando Cláudio entrou e lhe despejou veneno no ouvido, e que a história corrente é que uma serpente o picou enquanto dormia no jardim. O lugar da calma vira o lugar do crime.
Na cena 2 do Ato III, a peça encenada diante da corte repete o cenário: o ator-rei se deita no pomar, e o envenenador lhe derrama o frasco no ouvido.
Na cena 4 do Ato III, Hamlet pede à mãe que se confesse, que se arrependa do passado e que não derrame o estrume sobre o capim, para não torná-lo mais reles: a imagem do jardim, agora, é uma exortação.
O que significa
Lacerda lê a frase de Marcelo como síntese de uma ideia que volta ao longo da peça: a doença que apodrece o corpo é o equivalente físico das falhas morais. As imagens do primeiro ato vão nessa linha, do jardim abandonado à serpente que usa a coroa e ao veneno que coalha o sangue.
O jardim abandonado aparece primeiro como estado do mundo, mato que cresce por si, e depois se revela efeito de um ato: na fala do Espectro, alguém entrou no pomar e deixou o rei morto. Quando Hamlet pede à mãe que não adube o capim, ele deixa de descrever o jardim e pede que ela pare de contribuir para ele.
Relações
- Temas-padrão: Corrupção e decadência, Aparência e realidade, Morte.
- Personagens: Hamlet, Cláudio, O Espectro, Gertrudes.
- Símbolos vizinhos: O veneno, que o pomar guarda, e A Ratoeira, que o reencena.
- Hamlet, a peça.