Clavis Libri

Tema em Hamlet

Corrupção e decadência

O apodrecimento de uma pessoa, de uma instituição ou de uma civilização: corrupção, decadência, declínio.

O tema na obra

O tema aparece primeiro como imagem. Na cena 2 do Ato I, sozinho, Hamlet compara o mundo a um jardim abandonado, tomado pelo que há de podre e grosseiro, e na cena 4 do Ato I, Marcelo diz o que as sentinelas sentem: há algo de podre no reino da Dinamarca. Lacerda lê a frase como síntese de uma ideia que volta ao longo da peça, a doença que apodrece o corpo como equivalente físico das falhas morais. Na cena 5 do Ato I, a imagem ganha causa: O Espectro conta que Cláudio lhe despejou veneno no ouvido, e que a história oficial de uma picada de serpente enganou a Dinamarca.

No Ato IV, o apodrecimento é método de governo. Na cena 3 do Ato IV, Cláudio explica que não pode punir Hamlet pela lei porque o povo o ama, e que o embarque para a Inglaterra deve parecer decisão amadurecida, enquanto as cartas ao rei inglês exigem a morte do príncipe. Na cena 7 do Ato IV, ele conduz Laertes a aceitar um duelo com espada ungida e cálice de reserva, e mistura o fato, que Hamlet matou Polônio, com a invenção, a inveja que Hamlet teria do esgrimista.

Na cena 2 do Ato V, o veneno alcança a família real. Gertrudes bebe o vinho envenenado, Laertes é ferido pela própria lâmina e acusa o rei, e Hamlet crava a lâmina em Cláudio e o faz beber o cálice. Lacerda vê o desfecho como paz para Hamlet e desastre para a Dinamarca: a família real morre inteira e o reino acaba anexado à Noruega de Fortimbrás, de modo que a justiça foi alcançada a um custo gigantesco.

A corrupção da peça é menos um vício de Cláudio do que a maneira como a corte funciona. Quem governa por aparência de normalidade, com discurso medido, Conselho do seu lado e embarque disfarçado de decisão, só tem o veneno como instrumento de última instância, e o que se desfaz no fim não é um homem, é o jeito de a corte se sustentar. Por isso o fim é a anexação do reino, e não só a queda do rei.

Onde aparece

Passagens

O que a sentinela percebe antes de todos.

Há algo de podre no reino da Dinamarca (I.4)
Ato I: O Espectro e a ordem de vingança

O método de Cláudio: a opinião do povo.

Ele é amado pelas ingênuas multidões, / Cujo afeto não obedece ao juízo, e sim aos olhos (IV.3)
Ato IV: Exílio, loucura e armadilha

O argumento com que ele conduz Laertes.

Aquilo que desejamos fazer, / Devemos fazer na hora da vontade, pois ela flutua (IV.7)
Ato IV: Exílio, loucura e armadilha