Cena I: Polônio manda espionar Laertes
Resumo da seção
Polônio dá dinheiro a Reinaldo e o manda a Paris investigar Laertes por meio de pequenas calúnias, e se perde no meio das próprias instruções. Ofélia entra assustada: o príncipe apareceu desgrenhado, apertou-lhe o pulso, suspirou e saiu sem tirar os olhos dela. Polônio conclui que é loucura de amor, lamenta ter desconfiado do príncipe e corre a contar ao rei. Ofélia diz que, por ordem dele, devolveu as cartas e recusou as visitas.
Análise
Vedes como, com a isca da mentira, / Pescastes o peixe da verdade?
(II.1)
Cena II: Espiões, atores e um plano
Resumo da seção
Cláudio e Gertrudes chamam Rosencrantz e Guildenstern para sondar Hamlet. Voltimand e Cornélio, anunciados por Polônio, trazem as notícias da Noruega, onde Fortimbrás foi contido e vai atacar os poloneses. Polônio lê uma carta de amor do príncipe e propõe espiá-lo com Ofélia. Hamlet zomba de Polônio e arranca dos amigos a confissão de que foram chamados. Pede aos atores uma fala sobre Pirro e Príamo e a peça O assassinato de Gonzago. Sozinho, censura a própria inação e decide testar o rei pelo teatro.
Análise
Com a peça revelarei / O segredo íntimo do rei
(II.2)
Para discutir Hamlet diz que a Dinamarca é uma prisão, mas Rosencrantz e Guildenstern não a veem assim: por que ele a vê assim e os amigos não?
Tema central
Análise
Lacerda lê o ato como um jogo de vigilância em cadeia. Polônio espiona o filho em Paris, o rei e a rainha pagam amigos de infância para espiar Hamlet, e Polônio ainda planeja esconder-se para ouvir o encontro do príncipe com a própria filha. Para Lacerda, o castelo de Elsinore vira uma casa onde todos vigiam todos, e as tramas de pai e filho se espelham: Laertes espionado pelo pai, Hamlet pelo padrasto.
Lacerda lê o relato de Ofélia como um truque que a peça já usara com o Espectro: o horror é contado, não mostrado, e cada espectador compõe a sua imagem do príncipe delirante. A loucura fingida serve também para dizer verdades a Polônio e aos amigos sem ofender ninguém, como na conversa do peixeiro e do cão morto, em que a corrupção moral se liga à podridão do corpo.
Lacerda lê o monólogo final como o ponto em que se acumulam as razões do adiamento da vingança: a repulsa a matar com as próprias mãos, a exigência de prova numa corte em que a justiça pertence ao rei, a dúvida sobre se o fantasma diz a verdade, já que pode ser o demônio com um rosto querido e o dilema entre agir e refletir. O ator que chora por Hécuba, sem motivo, humilha o príncipe, que tem motivo e nada faz.
O que o ator tem de fingimento, Hamlet transforma em método: se a emoção encenada arranca sentimentos verdadeiros, a ficção pode fazer o rei se trair. A hesitação de Pirro, de espada erguida sobre Príamo, é uma imagem que o texto deixa pairando sobre o príncipe, sem comentário.