Quem é
Cláudio é o rei da Dinamarca, irmão do rei morto, casado com a viúva Gertrudes e tio e padrasto de Hamlet. Segundo O Espectro, matou o irmão com veneno despejado no ouvido no pomar e seduziu a rainha. Reina com discurso medido e o Conselho a seu lado, mantém o sobrinho perto e vigiado, e confessa o crime em cena só quando está sozinho e tenta rezar.
Trajetória
Na cena 2 do Ato I, anuncia o casamento com Gertrudes, envia emissários à Noruega e deixa Laertes voltar à França. Pede a Hamlet que abandone o luto e fique em Elsinore, e a rainha insiste. Lacerda lê essa cena como a primeira das três reuniões da corte, com Cláudio em vantagem: o sobrinho mantido no castelo, perto e vigiado.
Na cena 2 do Ato II, chama Rosencrantz e Guildenstern, com Gertrudes, para sondar Hamlet, e ouve de Voltimand e Cornélio as notícias da Noruega e de Polônio a tese de que o príncipe enlouqueceu de amor. Na cena 1 do Ato III, esconde-se com Polônio para espiar o encontro de Hamlet com Ofélia, vê que não é amor e decide enviá-lo à Inglaterra.
Na cena 2 do Ato III, na Ratoeira, vê reproduzido o seu crime: o ator derrama o veneno no ouvido do rei adormecido. Levanta-se, manda acender as luzes e sai. Na cena 3 do Ato III, sozinho, confessa o assassinato do irmão e tenta rezar, mas não consegue enquanto conserva a coroa e a rainha.
Pode-se obter o perdão conservando os lucros da ofensa?(III.3)
Na cena 1 do Ato IV, ouve de Gertrudes a morte de Polônio, vê na liberdade do enteado uma ameaça a todos e decide embarcá-lo. Na cena 3 do Ato IV, explica aos conselheiros que não pode puni-lo pela lei, porque o povo o ama, e revela, sozinho, que as cartas ao rei inglês exigem a morte do príncipe. Na cena 5 do Ato IV, acalma Laertes, que invade o castelo à frente de uma turba que o aclama rei.
Na cena 7 do Ato IV, chega uma carta de Hamlet anunciando a volta, e o rei conduz Laertes ao plano do duelo: uma espada sem proteção, à qual o próprio Laertes acrescenta o veneno da ponta, e um cálice envenenado de reserva, que é ideia de Cláudio. Para isso o rei usa esta lógica:
Aquilo que desejamos fazer, / Devemos fazer na hora da vontade, pois ela flutua(IV.7)
Na cena 2 do Ato V, o desafio chega por Osric. Gertrudes bebe o vinho envenenado, Laertes é ferido pela própria lâmina e acusa o rei, e Hamlet crava a lâmina nele e depois o faz beber o vinho envenenado.
Temas que encarna
Lacerda lê a frase de Marcelo sobre o podre no reino como síntese de uma ideia que volta ao longo da peça: a doença que apodrece o corpo é o equivalente físico das falhas morais, e as imagens do Ato I vão do jardim abandonado à serpente que usa a coroa e ao veneno que coalha o sangue.
O texto mostra Cláudio dividido entre o que faz em público e o que sabe em privado. Na cena 2 do Ato I, fala à corte com medida; na cena 3 do Ato III, sozinho, admite que não consegue rezar enquanto conserva a coroa e a rainha.
O argumento que Cláudio usa para conduzir Laertes é o que Hamlet usava contra si mesmo: a vontade flutua, e o dever que não se cumpre na hora vira suspiro inútil. É o adiamento de Hamlet visto pelo inimigo como a fraqueza a não imitar, e o plano que daí sai acaba por se virar contra o próprio rei.
Relações
- Hamlet: o sobrinho e enteado, a quem prende em Elsinore, manda à Inglaterra com cartas de morte e arma o duelo. É morto por ele no fim.
- Gertrudes: a rainha, que ele casou e que bebe, no duelo, o cálice que era para Hamlet.
- Polônio: o conselheiro que arma com ele o encontro de Hamlet e Ofélia, e que morre atrás da tapeçaria.
- Laertes: o filho enfurecido de Polônio, que ele acalma e transforma em executor.
- O Espectro: o irmão assassinado, que exige vingança.