Cena I: Cemitério, caveiras e enterro de Ofélia
Resumo da seção
Dois coveiros cavam a cova de Ofélia e discutem se um suicídio merece enterro cristão. Hamlet e Horácio chegam e, diante das caveiras que o coveiro joga, Hamlet pensa na morte que iguala poderosos e mendigos e, ao ouvir do coveiro que uma das caveiras é a de Yorick, o bobo de seu pai, fica abalado. Chega o cortejo de Ofélia, sem os ritos plenos. Laertes salta na cova, Hamlet se revela e pula atrás dele, e os dois lutam até serem separados.
Análise
Oh, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio, um sujeito de graça infinita e imaginação fabulosa.
(V.1)
Cena II: Carta trocada, duelo e mortes
Resumo da seção
Hamlet conta a Horácio que trocou, no navio, a carta que ordenava sua morte por outra, que condena Rosencrantz e Guildenstern. Osric traz o desafio de Cláudio: um duelo com Laertes. Gertrudes bebe o vinho envenenado e Laertes fere Hamlet com a espada envenenada. Trocadas as armas, Laertes é ferido pela própria lâmina e acusa o rei, que Hamlet mata. Ferido de morte, Hamlet pede a Horácio que conte sua história, ouve os canhões de Fortimbrás, indica-o como sucessor e morre.
Análise
Há um toque da Providência na queda de um pardal [...] Estar pronto é a única solução. Seja o que for!
(V.2)
Para discutir O que muda entre o que Hamlet diz de si na planície, no Ato IV, e o que diz a Horácio antes do duelo?
Tema central
Análise
Lacerda abre o ato com seis leituras do personagem. Coleridge vê um pensador em quem o mundo interior pesa mais que os fatos; Bradley, uma melancolia que torna inúteis a ação e o próprio pensamento; Ernest Jones, um conflito edipiano recalcado; Eliot, uma emoção sem objeto, a que faltaria um correlato objetivo; Wilson Knight, um homem que viu o mal nos outros e se tornou inumano; C.S. Lewis, uma região espiritual em que o leitor se projeta. Lacerda responde a Eliot dentro da própria cena do cemitério: a caveira, símbolo de todas as apreensões de Hamlet, é um bom exemplo de correlato objetivo. Lembra também que a imagem clássica de Hamlet com a caveira dizendo o monólogo do ser ou não ser não existe na peça.
Lacerda lê o Hamlet que volta à Dinamarca como outro homem. Ele já não vê a morte como mal nem como fuga, mas como destino comum de todos, aceita que uma divindade rege os acontecimentos e age por intuição, sem os escrúpulos que o paralisavam. A virada psicológica, nota Lacerda, acontece fora de cena, na viagem, e o gesto que a mostra é cruel: mandar Rosencrantz e Guildenstern à morte, que os comentadores tanto condenam quanto absolvem. Lacerda desconfia ainda da conta do coveiro, que daria trinta anos a Hamlet, e prefere ver um jovem aprendendo as verdades indigestas da vida.
Lacerda lê o fim como paz para Hamlet e desastre para a Dinamarca. Ao morrer, Hamlet se reconcilia com a própria natureza contraditória; a família real morre inteira e o reino acaba anexado à Noruega, de modo que a justiça foi alcançada a um custo gigantesco. Fortimbrás, vitorioso, pesa menos que o príncipe cujas dúvidas o público acompanhou, e Horácio sobrevive como o único que não se desviou e que deve contar a história. Lacerda observa também que a peça começa no sobrenatural, com o fantasma, e termina no que há de mais natural, as ossadas.
Cada armadilha armada contra Hamlet se fecha sobre quem a preparou. A espada envenenada fere o próprio Laertes, que diz ser executado pela sua traição; o cálice reservado ao príncipe mata a rainha e depois o rei, a quem Hamlet o faz beber; e a vingança que Hamlet adiou durante a peça só se cumpre quando já não há tempo de escolher. É por isso que a resposta dele a Horácio, antes do duelo, soa como o oposto do monólogo da planície: onde antes buscava um motivo bastante para agir, agora aceita estar pronto.