O tema na obra
A vingança entra na peça como ordem. Na cena 5 do Ato I, O Espectro diz a Hamlet que foi morto por Cláudio, que lhe despejou veneno no ouvido enquanto dormia no pomar, e pede vingança, com Gertrudes poupada. Hamlet jura, e ao jurar aceita como único mandamento o que o pai lhe deixou.
Na cena 2 do Ato III, a Ratoeira prova a culpa de Cláudio, e na cena seguinte a vingança fica ao alcance da espada: Hamlet encontra o rei de joelhos e desiste, porque matá-lo rezando seria mandá-lo ao céu (cena 3 do Ato III). Pouco depois, no quarto da rainha, ele fura a cortina convencido de que mata o rei, e o morto é Polônio (cena 4 do Ato III).
No Ato IV a vingança muda de mãos e de lado. Na cena 4 do Ato IV, Hamlet encontra o exército de Fortimbrás a caminho de um pedaço de terra sem valor e se censura por, tendo motivo e meios, deixar estar. Na cena 7 do Ato IV, Cláudio conduz Laertes, o filho que também quer vingar o pai, a um duelo com espada envenenada e cálice de reserva, e Laertes aceita o plano e ainda propõe o veneno na ponta. Lacerda lê nesse espelho um questionamento do próprio gênero: a justiça que a vingança promete depende do ponto de vista, e para Laertes o herói virou o vilão por ter matado Polônio.
Na cena 2 do Ato V, a vingança que Hamlet adiou só se cumpre quando já não há tempo de escolher: Laertes, ferido pela própria lâmina, acusa o rei, e Hamlet crava a lâmina nele e o faz beber o cálice. Antes do duelo, com a prova já em mãos e o dever de matar Cláudio reafirmado a Horácio, Hamlet diz que o que importa é estar pronto.
A vingança em Hamlet nunca é um golpe limpo. Cada tentativa cai em outro corpo (o de Polônio, o de Laertes, o de Gertrudes) e a que enfim atinge o alvo certo já não é uma decisão dele, é a consequência de uma armadilha alheia que se voltou contra o armador. A peça deixa a pergunta sobre o que seria vingar bem sem resposta, e responde só sobre o preço.
Onde aparece
- cena 5 do Ato I: o Espectro revela o assassinato e exige vingança, e Hamlet jura.
- cena 2 do Ato III: a Ratoeira prova a culpa de Cláudio diante da corte.
- cena 3 do Ato III: Hamlet ergue a espada sobre o rei ajoelhado e desiste.
- cena 4 do Ato III: Hamlet mata Polônio atrás da cortina, tomando-o pelo rei.
- cena 4 do Ato IV: a planície de Fortimbrás e a autocensura de Hamlet.
- cena 7 do Ato IV: Cláudio arma com Laertes o duelo envenenado.
- cena 2 do Ato V: a vingança se cumpre no duelo, sem que ninguém a tenha escolhido.
Passagens
A ordem recebida, e o encargo que Hamlet aceita.
Tempos fora do eixo. Oh, maldito fado, / Eu ter de corrigir o que está errado!(I.5)
A razão teológica que adia o golpe.
Pode-se obter o perdão conservando os lucros da ofensa?(III.3)
A autocensura diante do exército que marcha por quase nada.
Como fico eu, então, / Que tenho o pai assassinado, a mãe desonrada, / Fortes estímulos da razão e do sangue, / E deixo estar?(IV.4)
A prontidão com que Hamlet encara o duelo.
Há um toque da Providência na queda de um pardal [...] Estar pronto é a única solução. Seja o que for!(V.2)