Clavis Libri

Tema em Hamlet

Ação e inação

O eixo entre agir e não agir: hesitação, paralisia, o pensar que adia o fazer, a decisão que não se toma.

O tema na obra

O tema nasce no fim da cena 2 do Ato II. Sozinho, Hamlet se censura porque um ator chora por Hécuba sem motivo, enquanto ele, que tem o pai assassinado, nada faz, e decide testar o rei pelo teatro. Lacerda lê no monólogo o ponto em que se acumulam as razões do adiamento: a repulsa a matar com as próprias mãos, a exigência de prova numa corte em que a justiça pertence ao rei, a necessidade de testar o que o fantasma diz, já que pode ser o demônio, e o dilema entre agir e refletir.

Na cena 1 do Ato III, o monólogo "ser ou não ser" dá a fórmula mais citada: a consciência nos torna covardes, e a cor viva da decisão se enfraquece com a palidez do pensamento. Na cena 3 do Ato III, a ocasião aparece, com Cláudio de joelhos, e Hamlet a deixa passar. Lacerda vê aí uma espécie de hubris: o perfeccionismo de querer a justiça divina além da humana faz o príncipe poupar o culpado, e logo em seguida, no quarto da rainha, matar um inocente sem pensar (cena 4 do Ato III).

Na cena 4 do Ato IV, a planície de Fortimbrás inverte o quadro: aqui a ação sem razão aparente, um exército que marcha por um pedaço de terra sem valor, envergonha o pensamento que não age. Na cena 7 do Ato IV, Cláudio faz o mesmo argumento com os sinais trocados diante de Laertes: a vontade flutua, e o que se deseja fazer deve ser feito na hora da vontade. É a lógica do monólogo da planície na boca de quem quer um executor pronto.

Na cena 2 do Ato V, a resposta de Hamlet a Horácio antes do duelo soa como o oposto do monólogo da planície: onde antes ele procurava um motivo bastante para agir, agora aceita estar pronto, e a providência cuida do resto.

O oposto de inação, na peça, não é ação, é prontidão. Hamlet age sem pensar atrás da cortina e erra, pensa demais diante da oração e poupa, e só chega perto do alvo quando deixa de escolher o momento. O que o Ato V chama de estar pronto é uma terceira via, que a peça não oferece como solução e sim como o que sobra depois de testar as duas primeiras.

Onde aparece

Passagens

O plano que responde à inação.

Com a peça revelarei / O segredo íntimo do rei (II.2)
Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro

A fórmula do monólogo.

Assim a consciência nos torna a todos covardes, / E assim a cor mais viva da decisão / É enfraquecida com a palidez do pensamento (III.1)
Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio

A autocensura diante de Fortimbrás.

Como fico eu, então, / Que tenho o pai assassinado, a mãe desonrada, / Fortes estímulos da razão e do sangue, / E deixo estar? (IV.4)
Ato IV: Exílio, loucura e armadilha

A prontidão do desfecho.

Há um toque da Providência na queda de um pardal [...] Estar pronto é a única solução. Seja o que for! (V.2)
Ato V: Cemitério e duelo