Clavis Libri

Tema em Hamlet

Morte

A morte e a mortalidade: o morrer, a consciência do próprio fim, o além, a morte violenta como acontecimento da obra.

O tema na obra

A peça começa com uma morte que não descansa. Na cena 1 do Ato I, as sentinelas veem O Espectro, com o rosto e a armadura do rei morto, e na cena 2 do Ato I a corte pede a Hamlet que abandone o luto, ao que ele responde que o que tem dentro vai além da aparência. Na cena 5 do Ato I, o Espectro diz que está preso a tormentos até purgar seus crimes, morto sem confissão, e que foi envenenado por Cláudio.

Na cena 1 do Ato III, a morte vira pergunta. No monólogo "ser ou não ser", Hamlet pesa morrer como dormir, e o que o detém não é o castigo reservado ao suicida, é o que pode haver do outro lado: sonhos, e um país desconhecido de cujas fronteiras nenhum viajante retorna. Na cena 4 do Ato III, a morte vira fato brusco: Hamlet fura a cortina e mata Polônio, e sai arrastando o corpo.

Na cena 1 do Ato V, a morte vira matéria. Dois coveiros cavam a cova de Ofélia e discutem se um suicídio merece enterro cristão, e Hamlet, diante das caveiras, pensa na morte que iguala poderosos e mendigos e, ao saber pelo coveiro que uma das caveiras é a de Yorick, o bobo do pai, fica abalado. Lacerda nota que a peça começa no sobrenatural, com o fantasma, e termina no que há de mais natural, as ossadas. Na cena 2 do Ato V, a família real morre inteira no duelo, e Lacerda lê o Hamlet que volta da viagem como alguém que já não vê a morte como mal nem como fuga, mas como destino comum de todos.

A peça faz a morte percorrer três registros e só deixa Hamlet aceitar o último. A morte-aparição, o pai que volta para exigir, o prende. A morte-pergunta, o monólogo, o paralisa. A morte-matéria, a caveira com nome e passado, é a que ele consegue olhar sem fugir, e é depois de olhá-la que o príncipe que hesitava passa a dizer que basta estar pronto.

Onde aparece

Passagens

O monólogo que pesa morrer como dormir.

O que de fato o impede, e não é o castigo do suicida, é o que pode haver do outro lado do sono: Morrer, dormir, Dormir! Talvez sonhar. Sim, esse é o obstáculo. Que sonhos podem vir no sono da morte, Quando tivermos nos livrado do turbilhão carnal? Devemos hesitar. Tal é a ponderação Que faz as calamidades terem vida longa.
Hamlet

O crânio de Yorick.

Oh, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio, um sujeito de graça infinita e imaginação fabulosa. (V.1)
Ato V: Cemitério e duelo

A prontidão com que Hamlet olha a própria morte.

Há um toque da Providência na queda de um pardal [...] Estar pronto é a única solução. Seja o que for! (V.2)
Ato V: Cemitério e duelo