O tema na obra
A primeira pergunta da peça já é do tema: na cena 1 do Ato I, "Quem está aí?", feita na escuridão a um vigia que também não se vê. Para muitos críticos, diz Lacerda, ela é um mote que percorre o texto todo. Na cena 2 do Ato I, Hamlet opõe o que sente ao que parece, dizendo que o luto é o que há dentro e o resto, trapos de decência, enquanto Cláudio fala em tom medido. Na cena 4 do Ato I, Hamlet admite diante do O Espectro que ele pode ser um espírito bom ou um diabólico, e na cena 5 do Ato I a aparição diz ser o pai.
Na cena 1 do Ato II, Polônio ensina a técnica do espião: com a isca da mentira, pesca-se o peixe da verdade. Na cena 2 do Ato II, a vigilância se estende a Rosencrantz e Guildenstern, chamados para sondar Hamlet, que os desarma pedindo a confissão. O Ator que chora por Hécuba mostra o outro lado, a emoção encenada que arranca sentimentos verdadeiros, e é dessa constatação que Hamlet tira o método da Ratoeira. Entre as razões que Lacerda enumera para a demora está o medo de tomar a aparência pela realidade.
Na cena 2 do Ato III, a peça encenada diante da corte é a aparência a serviço da verdade: Cláudio se levanta, manda acender as luzes e sai, e Hamlet se convence da culpa dele. Lacerda nota, porém, que a prova é frágil, no máximo um indício, porque a reação do rei também poderia ser a indignação de um inocente ultrajado. Na cena 4 do Ato III, o que o espelho mostra a Gertrudes é o que existe dentro dela, e ela não vê o Espectro, que o filho vê com clareza: a realidade da cena não é a mesma para os dois.
Em Hamlet a aparência não é o contrário da realidade, é o único caminho até ela. O príncipe só chega à culpa de Cláudio fingindo loucura, encomendando uma peça e vigiando um rosto, e a cada passo a prova que obtém é indireta e sujeita a erro. A peça não resolve a oposição entre parecer e ser, mostra que, numa corte em que todos vigiam todos, a verdade só se acessa por quem aceita trabalhar com o parecer.
Onde aparece
- cena 1 do Ato I: "Quem está aí?" e a aparição com o rosto do rei morto.
- cena 2 do Ato I: os trapos de decência e o discurso medido da corte.
- cena 4 do Ato I: o Espectro que pode ser espírito bom ou diabólico.
- cena 5 do Ato I: a aparição diz ser o pai e conta o crime.
- cena 1 do Ato II: Polônio e a isca da mentira.
- cena 2 do Ato II: a vigilância em cadeia e o ator que chora por Hécuba.
- cena 2 do Ato III: a peça dentro da peça e a prova frágil.
- cena 4 do Ato III: o espelho oferecido à rainha e o Espectro que ela não vê.
Passagens
A pergunta com que a peça abre.
Quem está aí?(I.1)
Os trapos da decência.
Tenho dentro de mim o que vai além da aparência; / Estes são apenas os trapos e anúncios da decência(I.2)
A isca da mentira que pesca a verdade.
Vedes como, com a isca da mentira, / Pescastes o peixe da verdade?(II.1)
O espelho oferecido à rainha.
Não ireis embora até eu vos apresentar um espelho, / Onde verás o que existe dentro de vós.(III.4)