Machado de Assis trata a morte com ironia e desencanto, sem consolo: em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ela é a condição do próprio narrador, um defunto que escreve do outro lado. No primeiro capítulo, ele diz que não é "um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço".
A morte também libera a franqueza. No capítulo XXIV, Brás Cubas diz que "a franqueza é a primeira virtude de um defunto", porque já não há vizinhos nem plateia que o julguem. No capítulo LXXI, aponta "a grande vantagem da morte": se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar. Nos epitáfios, no capítulo CLI, vê um "pio e secreto egoísmo" do homem, que tenta arrancar à morte "um farrapo ao menos da sombra que passou".
Em Quincas Borba, a morte é matéria de filosofia irônica. O filósofo do Humanitismo declara: "rigorosamente, não há morte, há vida", porque a supressão de uma forma garante a sobrevivência de outra. A doutrina é do personagem e o romance a satiriza; não é um credo de Machado. Já o balanço final de Memórias Póstumas, no capítulo CLX, é seco: o defunto diz ter chegado ao outro lado com "um pequeno saldo", o de não ter deixado filhos.
No Clavis: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba.