Quem foi
Romancista russo e cristão ortodoxo, filho de um médico de Moscou. Na juventude participou do círculo de Petrachévski, que discutia o socialismo francês e a libertação dos servos, e por isso foi condenado à morte em 1849; teve a pena trocada no último instante por quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. A partir de 1849 passou a ser crítico do socialismo e do racionalismo que tinha abraçado, voltou da Sibéria com a fé reafirmada e viveu o resto da vida endividado, epiléptico e escrevendo contra o prazo.
Vida e obra
Depois de uma estreia celebrada com Gente pobre (1846), viveu a prisão, a Sibéria e o exílio militar até 1859. Na década de 1860 dirigiu revistas com o irmão, perdeu a primeira mulher e o irmão no mesmo ano e escreveu Memórias do Subsolo (1864). Os grandes romances vieram em seguida: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868-1869), Os Demônios (1871-1872), O Adolescente (1875) e Os Irmãos Karamázov (1879-1880). A segunda mulher, Anna Grigórievna, tirou-o das dívidas e o viu abandonar o jogo. Morreu em 1881, celebrado como a voz moral do país.
Por que ler
Dostoiévski não escreve romances de tese: põe as ideias no corpo de quem as defende e as segue até as últimas consequências. O estudante que mata por uma teoria, o príncipe bom demais para o mundo, os revolucionários que põem a causa no lugar de Deus, os irmãos que discutem se tudo é permitido: cada ideia é posta à prova numa vida, e o leitor vê o que ela faz com quem a carrega.
Moscou e a formação (1821-1843)
Nasceu em 30 de outubro de 1821, num hospital para pobres de Moscou onde o pai, Mikhail Andréievitch, era médico. O avô paterno tinha sido padre na Ucrânia, e o pai, ex-seminarista, conquistou pelo tempo de serviço a nobreza hereditária, em 1828: a família ganhou um título, mas continuou sem terras de peso e sem sangue aristocrático. A casa era devota, de fé cristã ortodoxa, e o menino aprendeu a ler nas histórias sagradas. Ainda quase criança conheceu o Livro de Jó, que mais tarde diria tê-lo marcado para sempre, e aos dez, Os Bandoleiros, de Schiller, que deixou rastros nos seus livros até o fim.
A mãe morreu de tuberculose em 1837, e no mesmo ano o pai levou os dois filhos mais velhos para São Petersburgo, onde Fiódor entrou na Academia de Engenharia Militar. Na viagem viu um mensageiro do governo espancar o cocheiro camponês, cena que guardou pelo resto da vida. Em 1839 o pai morreu na propriedade da família: a causa oficial foi apoplexia, e o rumor de que os servos o teriam matado nunca foi provado. Na Academia, Dostoiévski leu os românticos alemães e os romancistas sociais franceses, Balzac, Hugo e George Sand, sem jamais escolher entre a busca interior de uns e a compaixão pelos pobres dos outros. Formou-se em 1843, publicou no ano seguinte uma tradução de Eugénie Grandet, de Balzac, e deixou o serviço militar para viver de escrever.
Gente pobre e o círculo de Petrachévski (1844-1849)
O primeiro romance, Gente pobre, saiu em janeiro de 1846 e fez dele uma celebridade da noite para o dia: o crítico Vissarion Bielínski o saudou como o primeiro romance social da Rússia. A glória durou pouco. O Duplo, publicado semanas depois, foi recebido com frieza, os colegas de revista zombaram da vaidade do estreante, e em 1847 ele rompeu com Bielínski, por desavença pessoal e pela recusa do ateísmo do crítico. Já então sofria de crises nervosas, tratadas por um médico amigo anos antes de qualquer diagnóstico.
Em 1847 começou a frequentar as reuniões de sexta-feira de Mikhail Petrachévski, o chamado círculo de Petrachévski, que discutia o socialismo francês e a libertação dos servos, e dentro dele aderiu a um grupo menor e mais radical, em torno do aristocrata Nikolai Spiéchniev, que planejava montar uma gráfica clandestina. Um agente da polícia infiltrado registrou as últimas reuniões. Na madrugada de 23 de abril de 1849, dias depois de ter lido em voz alta a carta proibida de Bielínski a Gógol, foi preso com os outros membros. Segundo Simon Sebag Montefiore, levaram-no primeiro à Fontanka, sede da polícia política, onde o chefe da polícia, Alexei Orlov, inspecionou os presos antes de mandá-los para a fortaleza.
O cadafalso, a katorga e a fé (1849-1859)
Passou oito meses preso na fortaleza de Pedro e Paulo. Em novembro, quinze acusados foram condenados ao fuzilamento; o tsar Nicolau I comutou as penas, mas mandou que a comutação só fosse anunciada no último instante. Em 22 de dezembro de 1849, na praça Semiónovski, os condenados vestiram as mortalhas, os três primeiros foram amarrados aos postes, e só então o rufar dos tambores anunciou o indulto. Dostoiévski, ex-oficial, reconheceu o toque antes dos outros; um dos companheiros enlouqueceu ali mesmo. Quem supervisionou a cerimônia, como comandante da Guarda, foi o herdeiro do trono, o futuro Alexandre II, e o simulacro foi concebido pelo próprio Nicolau. Naquela noite escreveu ao irmão que a vida era uma dádiva e que renasceria. A pena dele era de quatro anos de trabalhos forçados, seguidos de serviço como soldado raso.
A caminho da prisão, em Tobolsk, mulheres de decabristas exilados deram aos condenados um exemplar do Novo Testamento, o único livro permitido no presídio, e Dostoiévski o guardou até a morte. De 1850 a fevereiro de 1854 cumpriu a pena em Omsk, entre presos quase todos camponeses que odiavam os nobres. Ali perdeu a esperança de que o povo seguisse uma revolução feita por intelectuais, e ali, por etapas que só contaria mais de vinte anos depois, mudou o olhar sobre os presos: a lembrança de um mujique que o consolara na infância, Marei, fez desaparecer o ódio que sentia por eles. Também em Omsk vieram as primeiras crises inconfundíveis da doença que o acompanharia até o fim.
A partir de 1849, com a prisão e os anos de Sibéria, deixou de ser um dos socialistas do círculo e passou a ser crítico do socialismo e do racionalismo revolucionário, posição que sustentaria até o fim nos romances e no jornalismo. Ao sair escreveu a Natália Fonvízina, uma daquelas mulheres, a profissão de fé que é a chave de quase tudo que escreveu depois: se lhe provassem que Cristo estava fora da verdade, preferiria ficar com Cristo a ficar com a verdade. Em março de 1854 foi incorporado como soldado em Semipalátinsk, onde se apaixonou por Maria Dmítrievna Issáieva, mulher de um funcionário alcoólatra. Ela ficou viúva em 1855, e os dois se casaram em fevereiro de 1857. Na volta do casamento ele teve uma crise, e o médico a diagnosticou como epilepsia. Reabilitado, publicou em 1859 duas novelas cômicas, O sonho do titio e A Aldeia de Stepántchikovo e Seus Habitantes, e em dezembro daquele ano voltou a São Petersburgo, dez anos depois da prisão.
As revistas, o subsolo e as perdas (1860-1865)
Com o irmão Mikhail lançou em 1861 a revista O Tempo, que defendia a reconciliação da elite europeizada com o povo e a sua fé, programa que se chamou de retorno ao solo (pótchvennitchestvo). Nela saíram Humilhados e ofendidos e as Recordações da Casa dos Mortos, o relato da prisão. Em 1862 fez a primeira viagem à Europa, de onde voltou com as Notas de inverno sobre impressões de verão, ataque à sociedade burguesa simbolizada pelo Palácio de Cristal de Londres. Nos anos seguintes viveu um caso com a jovem escritora Apollinária Súslova e começou a jogar na roleta dos cassinos alemães, vício que o arruinaria por quase uma década.
O ano de 1864 foi o das perdas. O Tempo tinha sido proibida em 1863 por um artigo sobre a revolta polonesa, e a nova revista, A Época, nasceu endividada. Em abril morreu Maria Dmítrievna, de tuberculose; em julho, o irmão Mikhail, cujas dívidas ele assumiu. No mesmo ano saíram as Memórias do Subsolo, resposta ao romance utópico O que fazer?, de Tchernichévski, cortadas pela censura justamente nas passagens em que concluíam pela necessidade da fé em Cristo. A Época faliu em 1865. Endividado, assinou com o editor Stellóvski um contrato que lhe tiraria por nove anos os direitos de tudo o que escrevesse se não entregasse um romance novo até 1º de novembro de 1866. Perdeu na roleta de Wiesbaden o pouco que levava para a viagem, e foi dali, sem dinheiro para pagar o hotel, que propôs à revista O Mensageiro Russo a história de um estudante que mata uma usurária.
Crime e Castigo, Anna e os anos na Europa (1866-1871)
Crime e Castigo saiu em folhetim ao longo de 1866 e foi o livro do ano. Para cumprir ao mesmo tempo o contrato com Stellóvski, ele contratou em outubro uma estenógrafa de vinte anos, Anna Grigórievna Snítkina, e ditou-lhe O Jogador em menos de um mês; entregou o manuscrito com duas horas de folga. Casaram em fevereiro de 1867, e Anna passou a cuidar das finanças, da saúde e, depois da morte dele, da obra. Fugindo dos credores, partiram em abril para uma viagem de três meses que durou quatro anos: Dresden, Baden-Baden, Genebra, Florença. Ele perdia no jogo o que tinham, e ela empenhava as joias e o casaco.
Em Basileia ele viu o Cristo morto de Holbein, que reaparece em O Idiota, o romance em que tentou retratar um homem inteiramente belo. Em Genebra nasceu e morreu, com menos de três meses, a primeira filha, Sofia (1868). O Idiota saiu em 1868 e 1869, e o assassinato de um estudante em Moscou pelo grupo revolucionário de Serguei Nietcháiev, em novembro de 1869, deu origem a Os Demônios. Em abril de 1871 jogou pela última vez, e nunca mais voltou à roleta. Em julho a família voltou a São Petersburgo.
O Diário e a fama (1871-1878)
De volta, o casal publicou Os Demônios em volume por conta própria (1873), começo da pequena editora familiar que Anna administrou. Por pouco mais de um ano ele dirigiu O Cidadão, semanário conservador do príncipe Mescherski, onde abriu a coluna Diário de um Escritor. Em 1875 publicou O Adolescente na revista radical Anais da Pátria, onde escrevia o crítico populista Mikhailóvski, seu adversário, e em 1876 transformou o Diário numa publicação mensal escrita só por ele, que lhe deu uma fama que nenhum romance dera. Ali defendeu a missão cristã da Rússia e a causa dos eslavos dos Bálcãs, e ali também está o antissemitismo mais explícito da sua obra. O Cidadão foi também a sua porta de entrada na corte: o herdeiro do trono era fundador discreto do jornal, e Mescherski o apresentou a Konstantin Pobedonóstsev, reacionário próximo do herdeiro, de quem Dostoiévski ficou amigo e com quem discutia nas noites de sábado. Em maio de 1878 morreu, de uma crise epiléptica, o filho Aliócha, de quase três anos; Dostoiévski visitou então o mosteiro de Óptina, e o consolo que ouviu do stárets Ambrósio virou cena de Os Irmãos Karamázov.
Karamázov, Púchkin e a morte (1879-1881)
Os Irmãos Karamázov saiu em folhetim a partir do começo de 1879 e terminou em novembro de 1880. No inverno de 1880, em meio aos atentados contra o tsar, voltou à praça Semiónovski como espectador do enforcamento do rapaz que atirara no ministro Loris-Mélikov, e concordou com o editor Suvórin que não denunciaria à polícia uma conspiração de terroristas. Em junho de 1880, nas festas de inauguração do monumento a Púchkin em Moscou, ele fez o discurso sobre a vocação universal do povo russo que levou a plateia ao delírio. Nos últimos anos de vida, Pobedonóstsev o apresentou ao herdeiro, que admirava Crime e Castigo, e o tsar Alexandre II o convidou a palestrar para os grão-duques mais jovens, Serguei e Paulo, e para o primo deles, Konstantin Konstantínovitch, poeta e amigo seu: o condenado de 1849 morreu recebido na família imperial que o condenara. Morreu em São Petersburgo em 28 de janeiro de 1881, de hemorragia pulmonar, depois de abrir ao acaso o Novo Testamento de Tobolsk e pedir a Anna que lesse o primeiro trecho. O cortejo, com sessenta e sete delegações, levou duas horas pela avenida Niévski até o mosteiro de Aleksandr Niévski, onde está enterrado. Um mês depois, o tsar Alexandre II foi assassinado por terroristas.