Dostoiévski não deixou um sistema filosófico, e sim romances em que as ideias são postas à prova no corpo de quem as defende. O que se chama de filosofia dele é uma aposta: a de que o ser humano não cabe numa fórmula, de que o coração que rejeita Cristo é capaz de chegar a extremos e de que só a vida de quem carrega uma ideia mostra o que ela vale.
O biógrafo Joseph Frank chama isso de imaginação escatológica: pôr ideias em ação e segui-las até as últimas consequências. É o estudante que mata por uma teoria, os revolucionários que põem a causa no lugar de Deus, os irmãos que discutem se tudo é permitido. Em Crime e Castigo, Razumíkhin resume a recusa que atravessa a obra: "A alma viva vai pedir vida, a alma viva não vai se submeter à mecânica". O próprio Dostoiévski reivindicou o subsolo como sua glória, o lugar de onde o homem contesta a utopia calculada.
Sobre o método, ele escreveu ao editor, a propósito do Grande Inquisidor, que o argumento de Ivã não seria respondido com outro argumento, e sim pelo destino das personagens e pelas últimas palavras do stárets Zósima. Fala-se, por isso, de uma refutação indireta.
Os leitores divergem sobre o resultado. Para Albert Camus, no fim o cristão vence o romancista: quem formula o absurdo com mais precisão responde com a fé. Para Frank e para o próprio Dostoiévski, trata-se de uma fé que passou pela negação mais forte e por isso não é ingênua. Otto Maria Carpeaux vê um convertido que nunca deu o passo da fé.
No Clavis: Crime e Castigo.