Dostoiévski defendia a fé cristã ortodoxa, a reconciliação entre a elite instruída da Rússia e o povo e uma missão cristã para o país, e combateu até o fim o socialismo e o racionalismo revolucionário, que ele mesmo tinha abraçado na juventude.
A virada vem de 1849. Preso por causa do círculo de Petrachévski e, depois, durante quatro anos de trabalhos forçados entre presos camponeses que odiavam os nobres, perdeu a esperança de que o povo seguisse uma revolução feita por intelectuais e voltou da Sibéria com a fé reafirmada. Em 1861 lançou com o irmão a revista O Tempo, que pregava o retorno ao solo (pótchvennitchestvo), a aproximação da elite europeizada com o povo e a sua fé. Em 1864, nas Memórias do Subsolo, respondeu ao romance utópico O que fazer?, de Tchernichévski.
Nos anos 1870, no Diário de um Escritor, defendeu a missão cristã da Rússia e a causa dos eslavos dos Bálcãs. Tornou-se monarquista, amigo do reacionário Konstantin Pobedonóstsev, e foi recebido na corte. No discurso sobre Púchkin, em junho de 1880, falou da vocação universal do povo russo, e a plateia foi ao delírio. Acreditava também que o aperfeiçoamento moral de cada pessoa, e não a ação política, seria a base de uma sociedade melhor.
Convém separar o jornalista do romancista. Nos romances, as ideias contrárias às dele são expostas com toda a força, e ele escreveu ao editor que a resposta ao argumento de Ivã Karamázov viria no destino das personagens, não num contra-argumento. E o mesmo Diário traz o antissemitismo documentado dele, tratado numa pergunta à parte.
No Clavis: Crime e Castigo.