Dostoiévski era cristão ortodoxo, e fez da fé o centro da vida e dos livros, uma fé que ele mesmo descrevia como passada pela dúvida, não pela ignorância.
A casa em que cresceu era devota, e o menino aprendeu a ler em histórias sagradas. Ainda criança conheceu o Livro de Jó, que diria ter-lhe marcado para sempre. Em 1847 rompeu com o crítico Bielínski em parte por recusar o ateísmo dele. A caminho da prisão, em Tobolsk, mulheres de decabristas exilados deram aos condenados um exemplar do Novo Testamento, o único livro permitido no presídio, e ele o guardou até a morte.
Ao sair de Omsk, escreveu a Natália Fonvízina uma profissão de fé que é a chave de quase tudo que veio depois: disse-se filho da dúvida e da descrença do século, mas afirmou que, se lhe provassem que Cristo estava fora da verdade, preferiria ficar com Cristo. Nos últimos cadernos voltou à mesma escolha e, num rascunho de resposta a Kaviélin, negou crer como uma criança: o seu hosana, escreveu, veio do grande cadinho da dúvida. Em 1878, depois da morte do filho Aliócha, visitou o mosteiro de Óptina, e o consolo que ouviu do stárets Ambrósio virou cena de Os Irmãos Karamázov. Antes de morrer, abriu ao acaso o Novo Testamento de Tobolsk e pediu a Anna que lesse o primeiro trecho.
Os leitores divergem sobre o alcance dessa fé. Albert Camus lê os romances como derrota do romancista pelo cristão; Otto Maria Carpeaux vê um convertido que nunca deu o passo da fé; Joseph Frank e o próprio Dostoiévski falam de uma fé que atravessou a negação mais forte.
No Clavis: Crime e Castigo.