Quando e para quem o poema foi escrito
Virgílio escreveu a Eneida na última década da sua vida, depois de quase um século de guerras civis em Roma. Júlio César foi assassinado em 44 a.C., e em 31 a.C. o filho adotivo dele, Otávio, venceu Marco Antônio e a rainha egípcia Cleópatra na batalha de Ácio. Em 27 a.C. Otávio recebeu o título de Augusto e passou a governar sozinho, e muitos romanos, cansados da guerra, acolheram bem a paz que ele prometia. O poema fala a esse público. No Livro VI, Anquises suplica às almas de César e Pompeu que não façam a guerra civil e anuncia que Augusto renovará a era de ouro, e o desfile de futuros romanos termina com Marcelo, sobrinho de Augusto e tido como seu sucessor, que morreu muito jovem, em 23 a.C. No Livro VIII, o escudo que Vulcano faz para Enéias traz gravada a batalha de Ácio, com Augusto na popa de um navio, ao lado do senado e dos deuses de Roma.
De onde veio a história
Enéias já existia antes de Virgílio. Ele aparece na Ilíada como um herói troiano, e as tradições posteriores o levaram para a Itália como ancestral dos romanos, depois da queda de Troia que o Livro II conta. Virgílio liga esse material à família de Augusto: a casa de Júlio César dizia descender de Iulo, filho de Enéias, e por ele de Vênus, e Augusto herdou essa pretensão ao ser adotado por César. Por isso a profecia de Júpiter no Livro I culmina num César da linhagem de Iulo. Os meninos a cavalo que Ascânio comanda no Livro V fazem o que os romanos chamavam de jogo de Troia, um espetáculo que Augusto promoveu muitas vezes. A estrutura também vem de Homero: os seis primeiros livros, de viagem pelo mar, lembram a Odisseia, e o Livro III recolhe de lá o grego Aquemênides, companheiro de Ulisses esquecido na caverna do ciclope Polifemo. Os seis últimos, de guerra em terra, lembram a Ilíada.
Cartago, a grande rival
Roma e Cartago travaram três guerras, entre 264 e 146 a.C.: na segunda, o general cartaginês Aníbal invadiu a Itália e chegou a ameaçar a própria Roma, e na terceira Cartago foi destruída. O Livro IV dá a essa inimizade uma origem no passado mítico: quando Dido, perto da morte, pede que um vingador nasça dos seus ossos, os comentadores costumam ver nessas palavras uma alusão a Aníbal. No Livro X, Júpiter adia o tempo do ódio e diz que um dia Cartago atacará as fortalezas de Roma, e só então será lícito disputar e saquear.
A Itália que o público conhecia
Vários lugares do poema existiam e podiam ser visitados. Cumas, onde Enéias consulta a Sibila no Livro VI, era uma antiga colônia grega perto de Nápoles, e o lago Averno, que dá nome à descida ao mundo dos mortos, fica na mesma região. No Livro VIII, Evandro conta a história de Hércules e do ladrão Caco e explica que daí vem o altar do herói, a Ara Máxima, que os romanos conheciam no Fórum Boário, o mercado de gado da cidade. No Livro VII, a ama de Enéias é enterrada numa costa que passa a levar o nome dela, Caieta, a atual Gaeta.
Como o poema foi publicado e lido
Virgílio morreu em 19 a.C., em Brundísio, a atual Brindisi, na volta de uma viagem à Grécia, sem ter feito a revisão final do poema. Segundo a tradição antiga, ele pediu que o texto fosse queimado, mas Augusto mandou publicá-lo, e os amigos do poeta, Vário e Tuca, prepararam a edição deixando de pé os versos que ele deixara incompletos. A obra termina com a morte de Turno, no Livro XII. Em poucas décadas ela virou texto de escola, e versos da Eneida, entre eles o de abertura do Livro I, aparecem riscados nas paredes de Pompeia, a cidade soterrada em 79 d.C.