Clavis Libri

Eneida · Livro VIII

O escudo

Resumo do capítulo

Turno ergue da cidadela de Laurento o sinal de guerra, os latinos se sublevam, e Messapo, Ufente e Mezêncio recrutam tropas e devastam os campos. Os chefes latinos enviam Vênulo à cidade de Diomedes pedir auxílio, com este argumento: os troianos chegaram ao Lácio, trazem os deuses vencidos, Enéias se diz chamado pelo destino como rei e muitos povos se juntam a Enéias. Enéias, vendo tudo isso, divide a mente entre planos, como o reflexo do sol numa bacia de bronze.

À noite, aflito com a guerra que se aproxima, Enéias adormece à margem do Tibre. O deus do rio surge entre os choupos e fala para lhe tirar os cuidados: aquele é o lugar certo, os Penates são certos, e a ira dos deuses já cedeu. Como prova, uma porca branca com trinta leitões estará deitada sob as azinheiras da margem, e ali ficará a cidade que Ascânio fundará trinta anos depois, Alba. O deus diz também o passo seguinte: os árcades de Evandro, que guerreiam sem trégua contra os latinos, devem ser aliados, e ele mesmo levará Enéias rio acima. Pede que Enéias reze a Juno e depois o honre, porque ele é o Tibre.

Ao acordar, Enéias reza ao rio, escolhe duas birremes e arma os companheiros. Vê a porca branca e a sacrifica a Juno. O Tibre aplaina a correnteza e a frota sobe. Ao meio-dia avistam os muros e as poucas casas da futura Roma, onde Evandro reinava pobre.

Evandro celebra Hércules num bosque diante da cidade, com o filho Palante e a elite jovem. Palante, que não quer o rito interrompido, corre de lança ao encontro dos navios e pergunta quem são. Enéias estende um ramo de oliveira: são troianos expulsos pelos latinos, procuram Evandro e pedem armas aliadas. Diante do rei, diz que não receou que ele fosse grego e parente dos Atridas, porque o ligam a ele os oráculos, o sangue comum (ambos descendem de Atlas) e a fama de Evandro. Veio ele mesmo, suplicante, porque os que perseguem Evandro, se expulsarem os troianos, submeterão toda a Hespéria. Evandro reconhece em Enéias o rosto e a voz de Anquises, que conheceu quando jovem, aceita a aliança e o convida ao banquete.

Evandro explica o rito: é gratidão por um perigo vencido, não superstição. Numa caverna do Aventino vivia Caco, meio homem, filho de Vulcano, que soprava fogo. Quando Hércules passou com os bois de Gerião, Caco roubou oito cabeças e as arrastou pela cauda para a gruta, para que as pegadas parecessem sair dela. Um boi mugiu e o denunciou. Hércules, furioso, correu ao monte; Caco se trancou com uma rocha, e Hércules, depois de rondar o monte três vezes, arrancou o pico sobre a gruta e a abriu à luz. Caco soltou fumaça para cegá-lo, e Hércules saltou pelo fogo e o estrangulou. Daí vem a Ara Máxima.

Evandro leva Enéias pela futura Roma e conta como chegou. Saturno, expulso do Olimpo, deu leis ali a um povo rude, e Evandro, expulso da pátria, foi posto ali pela Fortuna, pelo destino, pela ninfa Carmenta, sua mãe, e por Apolo. Mostra o Capitólio, coberto de mato e já temido como morada de um deus. Na choça, diz que Hércules entrou ali e que o hóspede deve fazer o mesmo, sem desprezar a pobreza.

À noite, Vênus, assustada com os latinos, pede armas ao marido Vulcano para o filho: não pedira nada enquanto Troia caía, mas agora, por ordem de Júpiter, Enéias está nas terras dos rútulos. Vulcano, abraçado por ela, cede e responde que, se ela tivesse pedido antes, ele teria armado os troianos. Desce à forja de Lípari e manda os ciclopes largarem o raio de Júpiter, quase pronto: precisa de armas para um homem, com um escudo só contra todos os dardos latinos.

Ao amanhecer, Evandro diz a Enéias que as suas forças são pequenas, mas que há mais: a cidade etrusca de Agila expulsou o rei Mezêncio, que matava atando mortos a vivos. Mezêncio fugiu para Turno, e um harúspice proibiu os etruscos de seguir chefe italiano. Evandro recusa a coroa que Tarconte lhe oferece, por velho, e quer Enéias como chefe. Dá-lhe Palante, para aprender a guerra, e duzentos cavaleiros árcades, mais outros duzentos em nome de Palante. Enquanto Enéias e Acates hesitam, um clarão e trombetas cruzam o céu limpo. Enéias reconhece o sinal que a mãe prometera e prevê a sorte de Turno.

Na despedida, Evandro lamenta não ter mais a força que tinha em Preneste, pede a Júpiter que lhe guarde Palante vivo ou, se a sorte ameaça o pior, que ele mesmo morra ali, antes de uma notícia pior, e cai desfalecido. Perto de Cere, Vênus aparece num vale afastado e deixa as armas sob um carvalho, para que Enéias não hesite em desafiar Turno. Ele admira o elmo, a espada, a couraça e o escudo, onde Vulcano, que conhece o futuro, gravou a Itália: a loba com os gêmeos, as sabinas, Porsena, Mânlio e o ganso que avisa dos gauleses, Catilina no Tártaro e Catão entre os justos. No centro vê Ácio, com Augusto na popa, o senado e os deuses de Roma, contra Antônio e a rainha egípcia, e por fim o triunfo de Augusto, com trezentos templos e as nações vencidas em desfile. Enéias não entende a imagem, mas se alegra e ergue ao ombro a fama e o destino dos descendentes.

Análise

O livro tem duas fundações em escalas diferentes: a de Roma, que Evandro mostra em mato e pedra sem saber o que mostra, e a do herói, que Vulcano grava no escudo. Nos dois casos quem fala ou carrega sabe menos que o leitor: Evandro aponta o Capitólio como morada de um deus incerto, Enéias leva ao ombro uma história que não lê. Hércules entra como duplo do hóspede: chega de fora, mata o monstro do lugar, ganha um culto e segue viagem, e Evandro conta isso a quem fará o mesmo contra Turno e Mezêncio, na estrutura que a Odisseia já usara com Ulisses e Polifemo.

O escudo difere do de Aquiles na Ilíada, que mostra cenas de vida e de guerra sem nome: o de Enéias nomeia pessoas e fatos, de Rômulo a Ácio, escritos para quem reconhecesse cada cena. Pode ser lido como propaganda de Augusto, e a objeção é forte, porque o escudo não decide nenhum combate e o herói o carrega sem entender. A mesma ignorância dá ao livro o gesto final: o fundador da linhagem leva sem saber o que a linhagem será, e o poema deixa aberto se isso é humildade ou apenas o limite de quem não vê o futuro.

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