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Eneida · Livro IX

O cerco

Resumo do capítulo

Enquanto Enéias está longe, nas terras de Evandro e dos etruscos em busca de aliados, Juno manda Íris a Turno, que descansava num bosque sagrado. Íris diz o que é verdade: Enéias deixou frota e acampamento sem chefe, e é a hora de atacar. Turno reconhece no prodígio um sinal divino, reza e leva o exército pela planície.

Os troianos, porém, cumprem a ordem que Enéias deixou ao partir: não formar linha de batalha nem confiar no campo aberto, só guardar o acampamento atrás dos muros. Fecham os portões e esperam nas torres, ainda que a vergonha e a ira os empurrem para fora. Turno chega à frente com vinte cavaleiros e lança um dardo para abrir o combate, mas ninguém sai. Ronda os muros à procura de entrada, impaciente como um lobo diante de um curral, e, sem meio de tirá-los de lá, decide incendiar a frota, encostada num flanco do acampamento.

Antes que o fogo pegue, o poeta pergunta às Musas quem salvou as naus. A mãe dos deuses, Cibele, cedera a Enéias os pinheiros do seu bosque no monte Ida e pedira a Júpiter que as naus nunca fossem vencidas. Júpiter nega a imortalidade a coisa feita por mãos mortais, mas jura pelo Estige que as naus que chegarem à Itália virarão deusas do mar. Chegado o prazo, e com o ultraje de Turno a lembrar a mãe, uma voz do céu manda os troianos não defenderem as naus: elas se soltam, mergulham como golfinhos e voltam como ninfas. Os rútulos se apavoram. Turno recobra o ânimo e lê o prodígio a seu favor: sem o mar, os troianos não têm fuga, e a terra é dos italianos. Também ele tem destinos, diz, o de acabar com essa gente que lhe tirou a noiva, Lavínia, e os gregos não são os únicos que pegam em armas por uma esposa. Atacará de dia, às claras, com fogo. Messapo guarda as portas, e os rútulos revezam-se, bebem e vigiam sem dormir.

Nos muros, os troianos vigiam sob Mnesteu e Seresto. Niso, guarda de uma porta, e Euríalo, o mais belo dos troianos, quase um menino, são companheiros inseparáveis. Niso, inquieto, vê os rútulos dormirem de vinho e as fogueiras baixarem, e propõe levar a Enéias o aviso pela rota que conhece de caçar até a cidade de Evandro. Quer a fama do feito, e Euríalo, tocado pelo amor ao louvor, recusa ficar para trás. Niso cede, mas pede que ele sobreviva, por causa da mãe. Diante dos chefes, o velho Alete elogia a coragem dos dois, e Ascânio promete taças, trípodes, ouro, o cavalo e as armas de Turno, mulheres cativas e as terras de Latino. Euríalo só pede que Ascânio cuide de sua mãe, que o seguiu desde Troia e a quem ele deixa sem despedida, porque não suportaria as lágrimas dela. Ascânio chora e jura tratá-la como mãe. Os dois partem.

No acampamento rútulo, vinho e sono. Niso mata Ramnetes, o augure favorito de Turno, e vários servos; Euríalo mata também, em fúria. Niso percebe que estão se deixando levar e manda parar, pois a luz se aproxima. Euríalo apanha as faléras de Ramnetes e o elmo de Messapo e os veste. Trezentos cavaleiros de Volscente, que levavam a Turno respostas dos latinos, veem o elmo brilhar e cercam a trilha. Euríalo, embaraçado pela mata, pela escuridão e pelo saque, é preso. Niso, que já passara, volta, reza à Lua e mata dois cavaleiros com dardos que ninguém vê partir. Volscente ameaça Euríalo, Niso se entrega gritando que a culpa é dele, e a espada de Volscente mata Euríalo. Niso mata Volscente e morre sobre o amigo.

Ao amanhecer, as cabeças dos dois vão fincadas em lanças diante do arraial. A Fama avisa a mãe de Euríalo, que larga a roca e corre às muralhas; o lamento dela quebra o ânimo dos troianos até Ideu e Actor a levarem para dentro. Então vem o assalto geral: Mezêncio com fogo, Messapo com escadas, Turno queimando uma torre. Ascânio, ofendido por Numano Rêmulo, o mata com sua primeira flecha de guerra, e Apolo lhe ordena que se retire.

Pândaro e Bícias abrem a porta para atrair o inimigo, e os rútulos avançam; avisado, Turno corre para lá e entra. Mata Bícias com uma falárica, e Pândaro, ao ver o irmão caído, fecha o portão com os ombros sem perceber que Turno já está dentro. Turno mata Pândaro e muitos outros, mas o narrador diz que, se ele tivesse aberto as portas aos seus, seria o último dia da guerra, e acrescenta que Juno lhe dá forças. Mnesteu reúne os troianos, e Turno recua, exausto, até o rio e salta nele. O Tibre o devolve aos rútulos.

Análise

O centro do livro é a incursão de Niso e Euríalo, e ela tem duas faces que o texto não separa. De um lado, é serviço: levar a Enéias a notícia do cerco, com o apoio dos chefes e as promessas de Ascânio. De outro, é caça por fama e butim: Niso diz que a ele basta a fama do feito, Euríalo é atingido pelo amor ao louvor, a matança passa do necessário e o elmo de Messapo é o que o entrega. A defesa também está no texto: Ascânio prometeu riquezas e despojo era costume de guerra, de modo que Euríalo não faz nada que os seus não esperem dele. O poema não escolhe, e o narrador encerra o episódio com um elogio, não com uma sentença.

Enéias não aparece no livro, mas tudo parte dele: a viagem dele abre a brecha por onde Turno ataca, a ordem dele mantém os troianos atrás do muro, e é a ele que Niso e Euríalo querem levar o aviso. A ausência lembra a de Aquiles na Ilíada, com o sinal trocado: a de Aquiles nasce da ira e enfraquece os gregos, a de Enéias nasce da busca de aliados e obriga os troianos a esperar. Turno, no fim, tem coragem que sozinha não decide a guerra: entra no acampamento e mata chefe após chefe, mas não abre o portão aos seus, e o narrador diz que, se o tivesse feito, aquele teria sido o último dia da guerra. A mudança de fera, do lobo ao leão, acompanha isso: a fome cega do começo vira, no fim, o brio de quem recua sem dar as costas.

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