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Eneida · Livro X

A batalha

Resumo do capítulo

Júpiter convoca os deuses ao Olimpo porque a guerra na Itália, que ele tinha proibido, estourou assim mesmo. Ele ordena paz e adia o tempo do ódio: um dia Cartago atacará as fortalezas de Roma, e então será lícito disputar e saquear. Vênus responde que o acampamento troiano está cercado e que Enéias está longe, e pede que ao menos Ascânio seja poupado. Juno rebate: Enéias foi à Itália por ordem do destino, e Vênus, que tirou o filho das mãos dos gregos e transformou a frota em ninfas, não pode chamar de crime a ajuda que ela dá a Turno. Júpiter encerra sem tomar partido: cada um, troiano ou rútulo, colherá o que as próprias ações mereceram, e o destino achará o caminho.

Enquanto isso, os rútulos cercam o acampamento, e os troianos resistem nas torres, com Ascânio entre eles. Enéias tinha ido buscar aliados e conseguiu os etruscos, que por ordem divina aceitam um comandante estrangeiro. O poeta nomeia os chefes da frota, e Palante vai ao lado de Enéias, perguntando pelas estrelas. À meia-noite, as naus troianas que a deusa Cibele transformou em ninfas do mar (episódio do Livro IX) alcançam o chefe, e Cimódoce, a mais eloquente delas, o avisa do cerco e do plano de Turno de separar os aliados do acampamento. Elas o procuram como a frota dele, depois de romperem as amarras sob o ataque dos rútulos. Enéias reza a Cibele e, ao amanhecer, ergue o escudo em chamas, o que anima os sitiados e inquieta os rútulos.

Turno não perde a confiança e manda atacar os troianos na praia, enquanto desembarcam em desordem. A nau do etrusco Tarcão encalha, mas os homens saltam, e Enéias abre o combate matando vários. Os árcades de Palante, a pé e em terreno ruim, começam a fugir, e Palante os envergonha: não há deus contra eles, são homens contra homens, e atrás há só o mar. Ele avança e mata. Lauso, filho do tirano etrusco Mezêncio, impede que os seus recuem. Júpiter não deixa os dois jovens se enfrentarem, porque a morte deles já está reservada a inimigos maiores. A irmã de Turno, Juturna, o aconselha a substituir Lauso, e Turno afasta os seus e reclama Palante só para si, querendo que o pai do rapaz, Evandro, assista. Palante reza a Hércules, que chora, mas Júpiter explica que cada um tem o seu dia. Palante acerta Turno de raspão, e Turno o atravessa com a lança.

Turno pisa o corpo, manda devolvê-lo a Evandro e arranca o talim, onde está gravado o massacre dos maridos pelas filhas de Dânao. O narrador interrompe e diz que um dia Turno odiará esse despojo. A notícia chega a Enéias, que avança sem pausa, captura oito jovens para sacrificá-los sobre a pira de Palante e recusa o resgate de Mago, dizendo que Turno acabou com as trocas de guerra ao matar Palante. Mata também o sacerdote Hemônides e Tarquito, que suplica em vão, e nega a Líger o perdão que ele implora, depois de Enéias ter matado o irmão dele, Lucago. Ascânio e os cercados rompem o cerco.

No Olimpo, Júpiter observa a Juno que Vênus sustenta os troianos. Juno pede que Turno seja tirado do combate, e ele concede esse adiamento, mas avisa que não mudará o curso da guerra. Juno forma então uma sombra com o rosto e as armas de Enéias, que provoca Turno e foge. Turno a persegue até um navio ancorado, entra, e Juno corta as amarras e o leva ao mar. Enéias o procura em vão, e a sombra se desfaz. Turno, sem entender, imagina que fugiu da batalha, três vezes tenta se matar ou se atirar ao mar, e três vezes Juno o contém. O navio o deixa na cidade de seu pai, Dauno.

Por ordem de Júpiter, Mezêncio ocupa o lugar de Turno. Expulso pelo próprio povo e inimigo dos deuses, ele luta como rocha e como javali cercado, e mata Orodes dizendo que o pai dos deuses cuide dele. Enéias o fere na virilha. Lauso vê o pai ferido e se atira contra Enéias para dar tempo à fuga. Enéias o avisa e, tomado pela ira, o mata, e logo sente pena e lhe devolve as armas e o corpo. Mezêncio, que estancava a ferida junto ao Tibre, entende pelo choro dos soldados e se acusa de ter deixado o filho morrer por ele. Monta o cavalo Rebo, chama Enéias três vezes e gira ao redor dele atirando lanças, até que Enéias mata o cavalo. Preso sob o animal, Mezêncio pede só uma sepultura junto ao filho, e Enéias o mata.

Análise

O livro inteiro gira em torno de dois rapazes e dos pais deles. Palante é mandado por Evandro à guerra e morre longe do pai, e a morte dele transforma Enéias, que passa a negar resgates e a matar quem lhe suplica. Lauso morre por Mezêncio, e a morte dele desmonta o tirano. Lauso cai por piedade filial e Palante por querer a glória do duelo, e o poema não deixa a piedade de um lado só, porque Enéias a reconhece em Lauso. O talim que Turno arranca de Palante é o objeto que o narrador promete cobrar mais tarde, e o leitor vive o resto do livro sabendo que o triunfo de Turno já está condenado.

A neutralidade de Júpiter é a pergunta mais difícil do livro. Ele diz que tratará troianos e rútulos sem distinção e, mais adiante, diz a Hércules que Turno chegou ao fim do que lhe foi dado. A fúria de Enéias também não nasce só da morte de Palante: já estava crescendo contra os rútulos antes de ele saber, e a notícia a torna implacável. O livro sustenta duas leituras, a de um destino que age por cima de todos e a de homens que escolhem cada golpe, e deixa as duas de pé.

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