Clavis Libri

Eneida · Livro V

Os jogos

Resumo do capítulo

Enéias já navega rumo à Itália quando vê, atrás, as muralhas de Cartago iluminadas por um fogo cuja causa os troianos desconhecem (o leitor do Livro IV sabe que é a pira de Dido), e o presságio lhes pesa: sabem o que uma mulher ferida de amor pode fazer. Uma tempestade fecha o céu, e o piloto Palinuro diz que com aquele tempo não alcançará a Itália nem com a garantia de Júpiter e propõe desviar para a Sicília. Enéias aceita, porque a Sicília guarda o rei troiano Acestes e os ossos do pai, Anquises, enterrado ali um ano antes.

Acestes os acolhe com fartura. No dia seguinte, Enéias reúne os companheiros no túmulo e lembra que se completa um ano da morte de Anquises: ele celebraria o dia mesmo que errasse por mares inimigos, e vê no desvio uma vontade dos deuses. Anuncia jogos para o nono dia. Ao fazer as libações, uma serpente sai do túmulo, prova as oferendas e volta sem fazer mal. Enéias, sem saber se é o gênio do lugar ou servidor do pai, renova as honras com mais empenho.

No nono dia começam os jogos, e o primeiro é o páreo de quatro naus. Gias lidera até o marco e manda o piloto Menetes passar rente à rocha, mas Menetes teme as pedras ocultas e se afasta, e Cloanto passa por dentro. Furioso pela honra perdida, Gias joga o piloto ao mar e toma o leme. Sergesto bate no rochedo, e Mnesteu, que já só pedia não chegar por último, ultrapassa os dois. Cloanto, quase alcançado, promete aos deuses do mar um touro branco, e Portuno empurra a sua nau: ele vence. Enéias dá prêmio a todos, e consola Sergesto, que chegou aos trancos, com uma escrava.

Na corrida a pé, Niso, que vai na frente, escorrega no sangue dos bois sacrificados e, caído, faz Sálio tropeçar para que o amigo Euríalo ganhe. Sálio protesta, mas a plateia gosta do rapaz e Enéias mantém as premiações: dá a Sálio uma pele de leão e a Niso, que reclama o que perdeu, um escudo, rindo.

No boxe, ninguém ousa enfrentar Dares, e ele reclama o touro. Acestes cobra do velho Entelo, antigo aluno do deus Érix, a fama que tinha. Entelo responde que não perdeu a coragem, só o sangue esfriou, e lança no chão as luvas de Érix, forradas de chumbo; Dares recua. Entelo oferece luvas iguais para os dois. Dares é ágil, Entelo pesado e ofegante; Entelo erra um golpe e cai, e, envergonhado e furioso, volta a atacar sem trégua, até que Enéias interrompe a luta e tira Dares dela, e os companheiros o levam ensanguentado às naus. Entelo mata o touro com um soco entre os chifres, oferece-o a Érix e depõe as luvas.

No arco, o alvo é uma pomba presa por um fio ao mastro de uma nau; Eurítion a abate. Acestes, o último, atira para o ar, e a flecha se incendeia e se desfaz como estrela cadente. Enéias lê o sinal como favor de Júpiter, dá a Acestes uma cratera que fora de Anquises e o proclama primeiro. Por último, Ascânio conduz os meninos a cavalo em manobras que lembram um labirinto. O narrador diz que Ascânio trouxe o jogo a Alba, Alba o passou a Roma, e os meninos ainda se chamam o esquadrão troiano.

Aí a sorte muda. Juno, que não saciou a dor antiga, manda Íris à frota. Íris encontra as troianas na praia, chorando por Anquises e olhando o mar: tanto mar ainda por vencer. Disfarçada na velha Béroe, diz que são sete anos de errância, que ali há a terra de Acestes, e que ninguém as impede de fundar uma cidade; conta um sonho em que Cassandra lhe deu tochas. Pirgo, velha ama dos filhos de Príamo, reconhece a deusa no olhar e no andar. As mulheres, divididas entre a terra à mão e os reinos que o destino chama, decidem quando a deusa sobe pelo céu e lançam fogo às naus.

Ascânio galopa ao acampamento, joga fora o capacete e pede que parem; elas fogem envergonhadas, mas o fogo persiste. Enéias reza a Júpiter e uma tempestade apaga as chamas, ao custo de quatro naus. Abalado, Enéias hesita, e o velho Nautes aconselha deixar com Acestes os cansados, para fundar a cidade de Acesta. À noite, Anquises aparece em sonho: vem por ordem de Júpiter, aprova o conselho, anuncia a guerra contra um povo duro no Lácio e manda o filho descer antes ao Averno, onde a Sibila o guiará. Some como fumaça, Enéias tenta abraçá-lo e conta tudo a Acestes. A cidade é traçada a arado.

Passados nove dias de festa, o vento volta a chamar e Enéias consola os que ficam e os entrega a Acestes. Vênus, com medo de Juno, pede a Netuno travessia segura até o Tibre, e ele promete: só uma vida se perderá. À noite o Sono desce disfarçado de Forbante e manda Palinuro descansar; Palinuro recusa, desconfiado do mar calmo, mas o deus o vence com um ramo molhado no rio do esquecimento e o lança às ondas com o leme. A frota segue segura. Perto das rochas das Sereias, Enéias percebe que a nau vai sem piloto, assume o leme e lamenta o morto.

Análise

O Livro V parece uma pausa entre Dido e o Averno, mas é nele que o poema mostra Roma sendo fundada por repetição. Os jogos honram Anquises e, em duas vezes, o narrador sai da cena para dizer onde aquilo ainda existe: as famílias romanas que descendem dos capitães do páreo (Mnesteu dá nome aos Mêmios, Sergesto aos Sérgios, Cloanto aos Clüêncios) e o esquadrão dos meninos a cavalo. A continuidade entre Troia, Alba e Roma passa por costumes e por nomes, não por batalhas. A leitura contrária vê o livro como tributo a Ilíada: os jogos por Pátroclo nascem de luto fresco e de vingança em curso, os de Enéias homenageiam um pai morto há um ano, sem o mesmo calor. Nessa leitura o livro é imitação, e o seu fôlego está na construção, não no assunto.

Em quase todos os episódios alguém age por honra ou afeto e paga um preço pequeno que o poema cobrará em escala maior depois: o amor de Niso por Euríalo, que dá a vitória ao amigo aqui, é o que os leva a morrer juntos no Livro IX; Palinuro, que recusa o descanso por prudência, cai do mesmo jeito, e é a conta de Netuno, "uma cabeça por muitos". O contraponto é Enéias como árbitro: dá algum prêmio a Sergesto, a Sálio, a Niso e a Dares, e assim impede que a disputa vire inimizade. Essa generosidade contrasta com a providência dos deuses, que salva a frota inteira e cobra de um só, sem avisar.

Desbloquear com a assinatura

Assinatura

A análise completa de cada livro de Eneida está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.

Ver os planosJá assina? Entrar