Livro I: A tempestade e Cartago
eu, vencida, desistir do que comecei? Não poder afastar da Itália o rei dos troianos?
Explicação e análise
A frota de Enéias deixa a Sicília rumo à Itália, e Juno a vê do alto. Ela é a rainha dos deuses e guarda um rancor antigo contra Troia: o julgamento em que Páris preferiu Vênus a ela e o rapto de Ganimedes. Sozinha, fala consigo mesma, e a primeira coisa que diz é uma pergunta de quem se recusa a aceitar o que já sabe.
A passagem mostra uma deusa que briga sabendo que vai perder. Logo depois destes versos ela admite que o destino a impede, e lembra que Palas pôde afundar uma frota grega por causa de um só homem. O que a move é a honra de rainha ofendida e o medo de que ninguém mais a adore, se ela ceder. Por isso fala em “desistir do que comecei”: o que está em jogo para ela é a própria posição entre os deuses, mais do que a sorte dos troianos. Com essa fala o poema abre a perseguição que dará ao herói sete anos de mar, e mostra que a ira nasce de um motivo que o próprio narrador, no proêmio, já tinha posto em dúvida.
Pode-se ler aqui a ira de Juno como a força de que o destino precisa para se cumprir: sem a oposição dela, a viagem de Enéias não teria obstáculo e a promessa de Roma não custaria nada. Pode-se ler também o contrário, como o retrato de uma resistência inútil, em que quem tem poder o gasta contra uma decisão tomada acima dele. O poema deixa as duas leituras de pé.
ó três e quatro vezes felizes aqueles a quem coube morrer diante dos olhos dos pais, sob as altas muralhas de Troia!
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 44 citações de Eneida está na assinatura.
a estes não ponho limite de espaço nem de tempo: dei-lhes um império sem fim.
Explicação e análise
não ignorando o mal, aprendo a socorrer os infelizes.
Explicação e análise
Livro II: A queda de Troia
ou algum outro engano se esconde: não confieis no cavalo, troianos. Seja o que for, temo os dânaos, mesmo quando trazem presentes.
Explicação e análise
Troia te confia os seus objetos sagrados e os seus Penates. Toma-os como companheiros dos fados: busca para eles as muralhas que, depois de percorrido o mar, enfim fundarás.
Explicação e análise
não é a face da lacônia Tindárida que te é odiosa, nem Páris o culpado; a inclemência dos deuses, dos deuses, é que derruba estas riquezas e abate Troia do seu cimo.
Explicação e análise
por que te agrada tanto entregar-te a esta dor insana, doce esposo? Isto não acontece sem a vontade dos deuses; não te é lícito levar Creúsa por companheira, nem o permite o senhor do alto Olimpo. Longos exílios te esperam, e um vasto mar a arar.
Explicação e análise
Livro III: A errância
é preciso mudar de sede: não foram estas praias que o Délio te aconselhou, nem Apolo mandou que te fixasses em Creta.
Explicação e análise
mas não cingireis de muros a cidade que vos foi dada antes que a terrível fome e o agravo da nossa matança vos obriguem a devorar as mesas roídas.
Explicação e análise
vivei felizes, vós cuja sorte já se cumpriu: nós somos chamados de destino em destino.
Explicação e análise
é guerra, ó terra hospitaleira, o que trazes: para a guerra se armam os cavalos, guerra ameaçam estes rebanhos. Mas esses mesmos quadrúpedes costumam puxar o carro e levar, concordes, o freio sob o jugo: há esperança de paz
Explicação e análise
Livro IV: Dido
mas agora o Apolo de Grineu e os oráculos da Lícia mandaram-me tomar a Itália, a grande Itália: aí está o meu amor, essa é a minha pátria.
Explicação e análise
nem uma deusa é tua mãe, nem Dárdano o fundador da tua raça, pérfido; o Cáucaso hirto te gerou entre duros rochedos, e tigres da Hircânia te deram o peito.
Explicação e análise
e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
Explicação e análise
Fundei uma cidade ilustre; vi as minhas muralhas; vinguei o marido e cobrei a pena do irmão inimigo; feliz, ai, demasiado feliz, se as naus dardânias nunca tivessem tocado a nossa costa!
Explicação e análise
Livro V: Os jogos
chegará seguro ao porto do Averno que desejas. Haverá apenas um que, perdido na corrente, ele procurará; uma só cabeça será dada por muitos.
Explicação e análise
nunca mais se dirá que há muralhas de Troia? Nunca mais verei os rios de Heitor, o Xanto e o Simoente? Vamos, queimai comigo as naus infaustas. Pois em sonho me pareceu que a imagem da profetisa Cassandra me dava tochas acesas: aqui buscai Troia, aqui é a vossa casa
Explicação e análise
que furor novo é este? Aonde ides agora, aonde, disse ele, ó míseras cidadãs? Não queimais inimigo nem acampamento hostil dos argivos: queimais as vossas esperanças. Eis-me aqui, o vosso Ascânio.
Explicação e análise
Mas antes entra nas moradas infernas de Dite e, pelos fundos do Averno, vem, filho, ao meu encontro. Não me detêm o ímpio Tártaro nem as sombras tristes; habito as amenas assembleias dos piedosos e o Elísio. Para lá, com o sangue de muitas reses negras, te levará a casta Sibila.
Explicação e análise
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos
fácil é a descida ao Averno; noite e dia está aberta a porta do negro Dite; mas voltar atrás e escapar para as auras do alto, esta é a obra, este é o trabalho
Explicação e análise
procura-o, pois, com os olhos no alto e, achado como deve, colhe-o com a mão: ele mesmo virá de boa vontade e sem custo, se os fados te chamam; de outro modo, por força nenhuma o vencerás, nem o arrancarás com duro ferro
Explicação e análise
ai, fui a causa da tua morte! Juro pelos astros, pelos deuses de cima e por qualquer fé que haja sob a terra profunda: contra a vontade, rainha, deixei a tua costa
Explicação e análise
tu, romano, lembra-te de reger os povos com o teu poder; estas serão as tuas artes: impor o costume da paz, poupar os submetidos e abater os soberbos
Explicação e análise
Livro VII: A chegada ao Lácio
eu, porém, grande esposa de Júpiter, infeliz, que nada deixei por tentar e me lancei a tudo, sou vencida por Enéias! Se o meu poder não basta, não hesitarei em implorar o que houver em qualquer parte: se não posso dobrar os deuses do alto, moverei o Aqueronte.
Explicação e análise
salve, terra devida a mim pelos fados; e vós, disse ele, ó fiéis Penates de Troia, salve! Aqui está a casa, esta é a pátria.
Explicação e análise
somos quebrados, ai, pelos fados, disse ele, e levados pela tempestade. Vós mesmos pagareis estas penas com sangue sacrílego, ó infelizes! A ti, Turno, o crime, a ti o triste suplício aguardará; e com votos tardios venerarás os deuses. Pois para mim o repouso está garantido, todo o porto à porta; sou privado de uma morte feliz.
Explicação e análise
Livro VIII: O escudo
aqui tens casa certa e Penates certos, não desistas; não te assustes com as ameaças da guerra: todo o inchaço da ira dos deuses cedeu.
Explicação e análise
estes umbrais o vencedor, neto de Alceu, transpôs; este palácio o recebeu. Ousa, hóspede, desprezar as riquezas, faz-te também digno do deus, e vem sem aspereza para a casa pobre.
Explicação e análise
eu agora não seria arrancado do teu doce abraço, filho; e Mezêncio, insultando esta cabeça tão vizinha, não teria feito tantas mortes a ferro nem deixado viúva de tantos cidadãos a cidade.
Explicação e análise
tais coisas, pelo escudo de Vulcano, presente da mãe, ele admira e, sem saber das coisas, alegra-se com a imagem, erguendo ao ombro a fama e os destinos dos descendentes.
Explicação e análise
Livro IX: O cerco
Os deuses põem esse ardor em nossas mentes, Euríalo, ou cada um faz de seu desejo violento um deus? Há tempo que a mente me incita a um combate ou a algum grande feito, e não se contenta com a quietude tranquila. [...] Todos pedem que Enéias seja chamado, o povo e os anciãos, e que sejam enviados homens com notícias seguras; se te prometem o que peço (pois a mim basta a fama do feito), parece-me que, junto àquele outeiro, posso achar caminho até os muros e a cidade de Palante.
Explicação e análise
Só uma coisa peço: tenho uma mãe, de velha linhagem de Príamo, a quem nem a terra de Ílio nem as muralhas do rei Acestes retiveram, pobre, quando saiu comigo. Eu a deixo agora sem saber de qualquer perigo que este seja, e sem despedida; a noite e a tua destra são testemunhas de que não poderia suportar as lágrimas de minha mãe. Mas tu, peço, consola a desamparada e socorre a abandonada; deixa-me levar comigo essa esperança em ti, e irei mais ousado a todos os perigos.
Explicação e análise
Eu, eu, aqui estou, eu o fiz; voltai contra mim o ferro, ó rútulos; toda a trama é minha; este nada ousou nem poderia, tomo por testemunhas este céu e os astros cientes; apenas amou demais o amigo infeliz.
Explicação e análise
Livro X: A batalha
tu podes tirar Enéias das mãos dos gregos e pôr diante dele, em lugar do homem, uma nuvem e ventos vazios; podes transformar a frota em tantas ninfas; e nós, ter ajudado os rútulos em alguma coisa, é um crime!
Explicação e análise
cada um tem o seu dia, breve e sem volta é o tempo da vida de todos; mas estender a fama pelos feitos, isso é obra da virtude. Sob as altas muralhas de Troia tantos filhos de deuses caíram! Com eles morreu Sarpédon, meu filho; também a Turno chamam seus destinos, e ele chegou ao fim do tempo que lhe foi dado.
Explicação e análise
que dará agora, pobre menino, em troca de tais louvores, que dará o piedoso Enéias digno de tamanha índole? Guarda as armas de que te orgulhavas; e te devolvo às sombras e às cinzas de teus pais, se isso lhes importa. Mas terás, infeliz, este consolo na tua triste morte: cais pela mão do grande Enéias.
Explicação e análise
ó espírito humano, ignorante do destino e da sorte que virá, e incapaz de guardar a medida quando a prosperidade o exalta! Chegará o tempo em que Turno desejará ter pago caro para ver Palante intacto, e odiará estes despojos e aquele dia.
Explicação e análise
Livro XI: Camila
é este o nosso regresso, são estes os triunfos esperados? Esta é a minha grande fé!
Explicação e análise
se ainda me demoro numa vida odiosa, morto Palante, a causa é a tua mão: vês que ela deve Turno ao filho e ao pai; só este lugar resta para os teus méritos e a tua fortuna.
Explicação e análise
Turno, se um forte tem algum direito de confiar em si, ouso e prometo enfrentar sozinha a cavalaria dos Eneadas e ir contra os cavaleiros tirrenos. Deixa-me tentar primeiro os perigos da guerra: tu, a pé, fica junto aos muros e guarda a cidade.
Explicação e análise
até aqui pude, irmã Aca; agora a ferida amarga me acaba e tudo em volta escurece. Foge e leva a Turno esta última ordem: que assuma o combate e afaste os troianos da cidade.
Explicação e análise
Livro XII: Turno
vencido pelo amor que te tenho, vencido pelo parentesco e pelas lágrimas da esposa aflita, rompi todos os laços, tirei a filha prometida ao genro e peguei em armas ímpias.
Explicação e análise
mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Explicação e análise
tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.
Explicação e análise
que o antigo nome não mude para os latinos nativos, nem mandes que eles se tornem troianos e se chamem teucros, nem que os homens mudem de voz ou troquem de roupa. Que haja Lácio, que haja reis albanos por séculos, que a linhagem romana seja poderosa pelo valor itálico: caiu Troia, e permitas que tenha caído com o seu nome.