O tema na obra
Na prólogo do Ato I, o Coro, que fala ao público de fora da ação e não pertence a nenhuma das casas, conta em catorze versos a peça inteira: a briga antiga de duas famílias de Verona, o par de amantes que nasce delas e a morte dos dois, que põe fim à discórdia dos pais. Quem assiste sabe o fim antes de a ação começar. No prólogo do Ato II, o Coro volta, de novo em catorze versos, e explica o que o público estranharia: o antigo desejo de Romeu por Rosalina agoniza como um velho no leito de morte, e a afeição jovem por Julieta espera para ser a herdeira.
A fala de Romeu muda com o que ele sente. Na cena 1 do Ato I, sofrendo por Rosalina, ele fala por pares de contrários: "amor briguento", "ódio amoroso", "pena de chumbo", "fumaça clara", "fogo frio", "saúde doente", fórmulas de poeta para uma mulher que nunca aparece em cena. Na cena 5 do Ato I, diante de Julieta, a linguagem deixa de ser monólogo: os dois dividem catorze versos rimados em que Romeu diz que seus lábios são peregrinos e Julieta responde que os santos têm mãos que os peregrinos tocam, e o beijo vem logo depois desses versos; ela ainda o provoca dizendo que ele beija "pela cartilha". Na cena 2 do Ato III, Julieta usa o mesmo registro de contrários contra Romeu, chamando-o de "coração de serpente" sob rosto de flores, e se corrige em seguida.
Mercúcio e a Ama falam de outro modo, com rodeios, trocadilhos e grosserias, e na cena 4 do Ato II os dois falam em prosa. Na cena 4 do Ato I, Mercúcio responde ao sonho de Romeu com o longo discurso sobre a rainha Mab, a parteira das fadas que visita os sonhos de cada um, e Romeu o manda calar porque ele fala de nada. Na cena 4 do Ato II, Mercúcio e Romeu trocam trocadilhos com a palavra inglesa "pink", que quer dizer ao mesmo tempo "cravo" e "o auge" da cortesia, e Mercúcio zomba da Ama com insinuações grosseiras, enquanto a Ama se embaraça ao falar da letra com que começam "Romeu" e "alecrim". Na cena 3 do Ato I, a Ama se perde numa longa lembrança do desmame de Julieta quando a mãe tenta falar de casamento.
As palavras também decidem o que acontece. Na cena 1 do Ato III, Mercúcio ferido diz que no dia seguinte o encontrarão "um homem grave", expressão que pode querer dizer sério ou de sepultura, e Benvólio conta ao Príncipe como a briga começou, enquanto a Senhora Capuleto responde que ele é parente de Montéquio e por isso não fala a verdade; o Príncipe bane Romeu em vez de condená-lo à morte. Na cena 2 do Ato III, a Ama dá a notícia na ordem errada, diz "ele morreu" antes de dizer quem, e Julieta conclui que Romeu morreu; quando ouve a palavra "banido", diz que ela matou dez mil Teobaldos. Na cena 1 do Ato IV, Julieta responde a Páris com frases de duplo sentido. Na cena 3 do Ato V, Frei Lourenço conta ao Príncipe toda a história, e a carta de Romeu e o relato de Baltasar a confirmam.
O modo de falar de cada um diz em que mundo ele vive: Romeu fala por fórmulas enquanto sofre por Rosalina e muda quando encontra Julieta, Mercúcio e a Ama rebaixam com prosa, rodeio e trocadilho o amor que os amantes elevam em verso, e o Coro dá o fim antes do começo. Mas as palavras que mais pesam são as que chegam fora de hora ou fora de ordem: uma notícia dada pela metade, uma palavra que mata mais que uma morte, o relato de um frade que o Príncipe aceita depois que Baltasar, o pajem de Páris e uma carta o confirmam. Quem conta, e quando conta, decide o que os outros fazem.
Onde aparece
- Prólogo do Ato I: O Coro conta em catorze versos que os amantes nascidos de duas casas inimigas morrerão e que a morte dos dois acabará com a rixa dos pais: o público conhece o fim antes da primeira cena.
- Cena 1 do Ato I: Sozinho com Benvólio, Romeu fala do amor que sente por Rosalina por pares de contrários, como "amor briguento" e "ódio amoroso", e dá a Benvólio a imagem de um amor que é fumaça de suspiros.
- Cena 4 do Ato I: Mercúcio responde ao sonho de Romeu com o discurso da rainha Mab, a fada que visita os sonhos de cada um, e Romeu o manda calar porque ele fala de nada.
- Cena 5 do Ato I: No baile, Romeu e Julieta trocam versos de peregrino e santa, que acabam num beijo, e Julieta diz a ele que beija "pela cartilha".
- Prólogo do Ato II: O Coro volta e explica em catorze versos que o antigo desejo de Romeu agoniza e que a afeição nova por Julieta é a herdeira, deixando claro ao público que o amor agora é recíproco.
- Cena 4 do Ato II: Na rua, Mercúcio e Romeu trocam trocadilhos, Mercúcio zomba da Ama com grosserias, e a Ama devolve com ameaças e se embaraça ao falar da letra de "Romeu" e de "alecrim".
- Cena 1 do Ato III: Mercúcio ferido joga com a palavra "grave" e repete a maldição à peste, e Benvólio conta ao Príncipe a briga, mas a Senhora Capuleto lembra que ele é parente de Montéquio e por isso não diria a verdade.
- Cena 2 do Ato III: A Ama diz "ele morreu" sem dizer quem, e Julieta pensa que é Romeu; ao saber que ele foi banido, ela diz que essa palavra sozinha matou dez mil Teobaldos.
- Cena 1 do Ato IV: Diante de Páris, na cela do frei, Julieta responde com frases de duplo sentido que ele entende como amor e que ela diz por Romeu.
- Cena 3 do Ato V: Frei Lourenço conta ao Príncipe como casou os dois, deu a poção e escreveu a Romeu, e Baltasar, o pajem de Páris e a carta de Romeu confirmam o relato.
Passagens
O Coro anuncia o fim antes de a peça começar:
A pair of star-cross’d lovers take their life;, um par de amantes nascidos sob estrela contrária ganha a vida; (Prólogo)
Romeu fala do que sente por Rosalina em pares de contrários:
O brawling love! O loving hate!, ó amor briguento! ó ódio amoroso! (I.1)
Julieta, sobre uma palavra que pesa mais que a morte do primo:
That ‘banished,’ that one word ‘banished,’ / Hath slain ten thousand Tybalts, aquele ‘banido’, aquela palavra só, ‘banido’, matou dez mil Teobaldos (III.2)