Clavis Libri

Personagem

Julieta

Quem é

Julieta é a filha única de Capuleto e da Senhora Capuleto, ainda sem catorze anos quando a peça começa: a Ama, que a amamentou, jura na cena 3 do Ato I que o aniversário dela cai na véspera do Lammas-tide, a duas semanas e uns dias dali. Já tem pretendente escolhido, Páris, e a primeira resposta que o texto lhe dá é prudente: vai olhar para ver se gosta.

Trajetória

Na cena 3 do Ato I, a mãe pergunta o que ela pensa de se casar, e Julieta diz que é uma honra com que ainda não sonha. Quanto a Páris, promete olhar para gostar e não se comprometer além do que o consentimento da mãe permitir.

Na cena 5 do Ato I, dança com um desconhecido e responde em versos de peregrino e santa; quando ele a beija, diz que ele beija pela cartilha. Pergunta o nome dele à Ama e, antes de saber quem é, diz que, se ele for casado, a sua cova será o seu leito de núpcias. Ao descobrir que é um Montéquio, conclui que o seu único amor nasceu do seu único ódio, visto cedo demais sem conhecer e conhecido tarde demais.

Na cena 2 do Ato II, à janela, lamenta que Romeu tenha o nome de um Montéquio e pergunta o que há num nome.

What’s in a name? That which we call a rose / By any other name would smell as sweet, o que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo perfume (II.2)
Ato II: O jardim e o casamento

Quando Romeu se revela, ela teme a pressa do pacto, que lhe parece rápido demais, como o relâmpago que acaba antes de alguém dizer que relampejou, e combina que, se ele pensa em casamento, responda no dia seguinte, pelo mensageiro que ela enviará às nove, com o lugar e a hora.

Na cena 5 do Ato II, espera o recado e se desespera porque a Ama leva três horas para voltar e ainda enrola antes de contar. Quando a Ama por fim fala, Julieta corre à cela de Frei Lourenço, e na cena 6 do Ato II os dois dizem que a alegria deles não cabe em palavras, antes de o frei levá-los à igreja.

Na cena 2 do Ato III, espera a noite em que Romeu virá ao seu quarto, e a Ama chega com as cordas e a deixa crer que ele morreu. Ao saber que Romeu matou Teobaldo e foi banido, Julieta o amaldiçoa, corrige-se na hora e conclui que a palavra banido matou dez mil Teobaldos. Manda um anel a Romeu pela Ama.

Na cena 5 do Ato III, tenta reter Romeu ao amanhecer, e na despedida diz ter uma alma de mau presságio, que o vê como um morto no fundo de uma tumba. A mãe aparece falando de vingança e promete mandar envenenar Romeu em Mântua; Julieta responde com frases que a mãe entende num sentido e ela, noutro. Quando a mãe anuncia o casamento com Páris na quinta-feira, Julieta o recusa. Capuleto ameaça deserdá-la, a mãe diz que acabou com ela, e a Ama, depois de defendê-la diante do pai, aconselha a casar com Páris. Julieta jura que dali em diante a Ama e o coração dela serão dois e vai ao frade, decidida a morrer se não houver outro remédio.

Na cena 1 do Ato IV, encontra Páris na cela do frei e lhe responde com frases de duplo sentido. A sós com o frei, mostra uma faca e diz que se mata se não houver remédio; ele propõe a poção que a fará parecer morta por quarenta e duas horas, e ela aceita sem medo. Na cena 2 do Ato IV, volta para casa e, de joelhos, pede perdão ao pai pela desobediência e promete obedecer; Capuleto, aliviado, quer adiantar o casamento para a manhã seguinte, mas a Senhora Capuleto lembra que só será na quinta.

Na cena 3 do Ato IV, pede à Ama e à mãe que a deixem a sós, enumera o que pode dar errado, da poção ser veneno a acordar na cripta antes da chegada de Romeu, vê o fantasma de Teobaldo e bebe, brindando a Romeu.

Romeo, Romeo, Romeo, here’s drink! I drink to thee., Romeu, Romeu, Romeu, aqui está a bebida! Bebo a ti. (IV.3)
Ato IV: A poção da morte aparente

Na cena 5 do Ato IV, é encontrada morta na manhã das bodas. Na cena 3 do Ato V, acorda na tumba e pergunta ao frei por Romeu; quando ele foge ao barulho da guarda, recusa-se a ir com ele. Encontra o marido morto com a taça na mão, beija os lábios dele na esperança de achar algum veneno, e se mata com a adaga dele.

Temas que encarna

O espaço de Julieta se estreita, e ela decide cada passo mais sozinha. Na cena 3 do Ato I, responde à mãe que só vai olhar para gostar; na cena 5 do Ato III, o pai, a mãe e a Ama deixam de ser apoio; na cena 3 do Ato IV, diz que precisa representar sozinha a sua cena sombria; na cena 3 do Ato V, até o frei foge, e ela fica com a adaga de Romeu.

Julieta é a que mais aprende a dizer uma coisa a quem ouve e outra a quem sabe. Com a mãe, na cena 5 do Ato III, ela fala de Romeu em frases que a mãe lê como ódio; com Páris, na cena 1 do Ato IV, as respostas dela cabem em dois sentidos; com o pai, na cena 2 do Ato IV, a obediência fingida o faz achar que a filha se emendou. A poção só funciona porque cada um dos três ouve o que quer ouvir, e quem sabia a verdade, o frei, depende de uma carta e de tempo, que é o que falta.

Relações

  • Romeu: o amor do baile, o marido da cela, o morto da tumba; ela o ama contra o nome e o chama de marido mesmo quando o amaldiçoa.
  • Frei Lourenço: confessor e autor do plano da poção; é o único que sabe de tudo, e foge quando ela mais precisa dele.
  • A Ama: a confidente que traz o recado e, no fim, aconselha o que Julieta não pode aceitar.
  • Capuleto: o pai que, no começo, diz que o consentimento dela pesa mais que a vontade dele e que, depois da recusa, a ameaça de deserdar.
  • Páris: o pretendente que ela despista com frases de duplo sentido.
  • Teobaldo: o primo que ela chora e depois vê como fantasma.