Clavis Libri

Personagem

Mercúcio

Quem é

Mercúcio é amigo de Romeu e parente do Príncipe Escalo e de Páris, mas não pertence a nenhuma das duas casas rivais, e é por isso que a maldição dele cai sobre as duas. É a voz mais zombeteira do grupo: faz graça com o amor, com os duelistas de manual e com a Ama, e tem uma resposta pronta até para a própria ferida.

Trajetória

Na cena 4 do Ato I, a caminho do baile, tenta tirar Romeu da tristeza com zombaria, dizendo que estão queimando luz. Quando Romeu fala de um sonho, responde com o longo discurso da rainha Mab, a parteira das fadas que visita os sonhos de cada um: o amante sonha com amor, o advogado com honorários, o soldado com degolar estrangeiros. Romeu o interrompe, dizendo que ele fala de nada, e Mercúcio concorda que sonhos são filhos de um cérebro ocioso.

Na cena 1 do Ato II, convoca Romeu pela rua com zombarias grosseiras sobre Rosalina, sem saber que essa paixão já acabou.

Na cena 4 do Ato II, imagina Romeu "já morto, atravessado por um olho negro de moça", e pergunta se um homem assim enfrenta Teobaldo, que mandou um desafio à casa dele; descreve Teobaldo como o capitão das cortesias, que luta como quem canta, seguindo o compasso, e despeja a sua irritação sobre os que se preocupam mais com as formas novas de falar e de esgrimir do que com o essencial. Quando Romeu volta a trocar trocadilhos com ele, Mercúcio o saúda: agora sim é Romeu. Logo depois humilha a Ama com insinuações grosseiras.

Na cena 1 do Ato III, num dia quente, Benvólio quer evitar encrenca, e Mercúcio responde com uma lista de brigas absurdas que o próprio Benvólio já arrumou, por tosse na rua e por sapato amarrado com fita velha. Quando Teobaldo chega, Mercúcio pede uma palavra e um golpe; quando Teobaldo o acusa de andar em companhia de Romeu, responde que companhia é coisa de menestréis e mostra o arco do seu violino: a espada. Teobaldo chama Romeu de vilão, Romeu recusa o duelo, e Mercúcio chama a recusa de "submissão calma, desonrosa, vil" e saca a espada no lugar dele.

Ferido sob o braço de Romeu, que se meteu entre os dois para apartar, diz primeiro que é um arranhão, "não tão fundo quanto um poço nem tão largo quanto a porta de uma igreja, mas basta". Diz que, se perguntarem por ele no dia seguinte, o acharão um homem grave. Pergunta a Romeu por que se meteu entre os dois, e Romeu responde que pensou fazer o melhor. Pede a Benvólio que o leve para dentro de uma casa e repete a praga sobre as duas casas. Morre fora de cena, e é Benvólio quem traz a notícia.

A plague o’ both your houses, que a peste leve as duas casas de vocês (III.1)
Ato III: Mercúcio, Teobaldo e o banimento

Temas que encarna

Mercúcio trata tudo como brincadeira, até a própria ferida: um arranhão, um homem grave, "comida de vermes". A zombaria dele cobre o amor de Romeu, a rainha Mab, Teobaldo e a Ama, e a única vez em que ele deixa de brincar é ao amaldiçoar as duas casas.

A morte de Mercúcio é a dobradiça da peça: até a cena 1 do Ato III, quase tudo cabe em piada, e depois dela a peça vira outra coisa. Quem paga é alguém que não é Montéquio nem Capuleto, e a praga dele, lançada de fora, antecipa o que o Príncipe dirá no fim: que perdeu dois parentes, Mercúcio e Páris, por ter fechado os olhos ao ódio das casas.

Relações

  • Romeu: o amigo que ele quer de volta à graça e por quem morre num duelo que Romeu recusou.
  • Benvólio: o companheiro de rua, a quem ele chama de brigão enquanto a briga se arma, e que traz a notícia da morte dele.
  • Teobaldo: o duelista que ele ridiculariza como capitão das cortesias e que o mata.
  • A Ama: o alvo da zombaria dele na rua, na cena em que ela procura Romeu.
  • Páris: o parente que Romeu, ao reconhecê-lo morto na tumba, chama de parente de Mercúcio.