Clavis Libri

Tema em Júlio César

Linguagem e narração

A palavra e o contar: linguagem, retórica, narrativa, quem conta a história e com que interesse, o silêncio, o livro dentro do livro.

O tema na obra

Na cena 2 do Ato I, o acontecimento mais grave do dia, a coroa oferecida e recusada, chega por voz de Casca, que desmonta o ritual: a recusa lhe parece teatro, a multidão aplaude como a plateia de atores, e Cícero fala grego e Casca não entende. O ponto decisivo, se César quer a coroa, fica sem resposta, porque quem conta já tem o desprezo pronto.

Na cena 1 do Ato II, Bruto decide a morte de César por uma imagem que ele mesmo escolhe, o ovo da serpente, e pede aos conspiradores que escondam o plano no rosto como os atores romanos. Na cena 2 do Ato II, a lisonja de Décio vence os avisos do céu: ele muda o sentido do sonho de Calpúrnia, acrescenta a oferta da coroa e a ameaça do riso dos senadores, e a frase sobre medo derruba o que o sonho e os augúrios não puderam.

Na cena 2 do Ato III, no Fórum, Bruto e Antônio usam a linguagem de modos opostos. Bruto fala em prosa, pede que acreditem nele pela honra e oferece um argumento: amou César, mas amou mais Roma. Antônio fala em verso, diz que não é orador, repete que Bruto é um homem honrado até a fórmula virar ironia, e troca o argumento por coisas que o povo vê e ganha: o manto furado, as feridas, o testamento.

Na cena 3 do Ato III, o poeta Cina é cercado por cidadãos exaltados e, mesmo gritando que é o poeta, é atacado pelo nome e pelos maus versos.

Em toda cena em que algo se decide, quem conta decide: Casca com o desprezo, Bruto com a imagem, Décio com a lisonja, Antônio com o verso. O sentido do crime depende de quem o conta depois, e a cena do poeta mostra a face final disso, uma turba que mata um homem por causa de um nome.

Onde aparece

Passagens

Bruto escolhe a imagem que decide o crime:

And therefore think him as a serpent’s egg / Which hatch’d, would, as his kind grow mischievous; / And kill him in the shell, e portanto pense nele como num ovo de serpente que, chocado, se tornaria nocivo, como é da sua espécie; e mate-o na casca (II.1)
Ato II: A conspiração e a manhã dos Idos

Antônio abre o discurso que vira a multidão:

Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him., amigos, romanos, compatriotas, emprestem-me os ouvidos; venho enterrar César, não elogiá-lo. (III.2)
Ato III: O assassinato e o Fórum

A turba condena um homem pelo nome:

It is no matter, his name’s Cinna, não importa, o nome dele é Cina (III.3)
Ato III: O assassinato e o Fórum