Quem é
Romeu é o filho de Montéquio e chega à peça bem longe do amante que o título promete: o pai conta que ele passa as manhãs no bosque, entre lágrimas e suspiros, e que ao nascer do dia se tranca no quarto, fecha as janelas e faz de si uma noite artificial. A causa é Rosalina, uma mulher que jurou castidade, que ninguém vê em cena e de quem ele fala em paradoxos de poeta. É primo de Benvólio, amigo de Mercúcio e, depois da cela do frei, marido secreto de Julieta.
Trajetória
Na cena 1 do Ato I, Romeu aparece depois da briga de rua e responde ao que vê com contradições empilhadas, "amor briguento" e "ódio amoroso". Benvólio arranca dele a confissão: ele ama quem não o aceita e não consegue esquecê-la.
Na cena 2 do Ato I, Benvólio propõe curá-lo com outro rosto, e a lista de convidados que Romeu lê para um criado que não sabe ler traz o nome de Rosalina. Ele aceita ir ao baile, mas só para ver a sua dama brilhar acima de qualquer outra.
Na cena 4 do Ato I, a caminho do baile, recusa-se a dançar e escolhe carregar a tocha. Interrompe o longo discurso de Mercúcio sobre a rainha Mab, dizendo que ele fala de nada, e confessa que o espírito dele pressente uma consequência ainda pendurada nas estrelas, que vai começar com a festa daquela noite.
Na cena 5 do Ato I, vê Julieta e esquece Rosalina. Os dois conversam em versos de peregrino e santa, e ela diz que ele beija pela cartilha. Só depois, pela Ama, ele descobre quem ela é e conclui que a sua vida passou a ser dívida do inimigo.
Na cena 1 do Ato II, pula o muro do pomar dos Capuleto e não responde ao chamado de Benvólio e Mercúcio, que o procuram pela rua. Na cena 2 do Ato II, ouve Julieta lamentar da janela que ele tenha o nome de um Montéquio, revela-se e troca juras com ela. Julieta acha tudo rápido demais, e combinam que, se ele pensa em casamento, responda no dia seguinte, pelo mensageiro que ela enviará às nove, com o lugar e a hora.
Na cena 3 do Ato II, procura o frei ao amanhecer, sem ter dormido, e pede que o case com Julieta no mesmo dia. Diz já ter esquecido Rosalina, e o frei estranha a mudança, lembra que o amor dos moços mora nos olhos e não no coração, mas aceita, na esperança de reconciliar as duas casas, e o manda ir devagar.
Na cena 4 do Ato II, na rua, Romeu devolve trocadilho por trocadilho a Mercúcio, que o saúda por ter voltado a ser ele mesmo, e manda dizer a Julieta, pela Ama, que esteja à tarde na cela de Frei Lourenço; promete uma escada de cordas para a noite. Na cena 6 do Ato II, diante do frei, diz que nenhuma dor anula a alegria de um minuto com ela.
Na cena 1 do Ato III, Teobaldo o chama de vilão, e Romeu, já parente dos Capuleto em segredo, recusa o duelo e diz que o ama mais do que Teobaldo pode imaginar, até que saiba a razão. Mercúcio chama isso de submissão desonrosa e toma o duelo para si; Romeu tenta apartar os dois, e Mercúcio é ferido sob o braço dele. Depois do ferimento de Mercúcio, Romeu culpa a beleza de Julieta por ter amolecido o aço da sua coragem; quando Benvólio traz a notícia da morte, invoca a fúria de olhos de fogo, mata Teobaldo quando este volta e diz ser o bobo da fortuna. O Príncipe Escalo o bane em vez de condená-lo à morte.
Na cena 3 do Ato III, recebe do frei a notícia do banimento e a chama de tortura: não há mundo fora dos muros de Verona.
There is no world without Verona walls, / But purgatory, torture, hell itself, não há mundo fora dos muros de Verona, só purgatório, tortura, o próprio inferno (III.3)
Romeu rejeita a filosofia que o frade oferece e, quando a Ama conta como Julieta chora, saca a espada contra si mesmo. O frei o repreende e arma o plano: passar a noite com Julieta, partir para Mântua antes do amanhecer e esperar o perdão. Na cena 5 do Ato III, despede-se dela ao amanhecer, entre o rouxinol e a cotovia; Julieta o vê como um morto no fundo de uma tumba, e ele responde que também a vê pálida. Desce e parte.
Na cena 1 do Ato V, em Mântua, acorda de um sonho bom e recebe de Baltasar a notícia de que Julieta morreu. Não há carta do frei. Romeu desafia as estrelas, manda alugar cavalos e vai atrás de um boticário miserável, a quem paga quarenta ducados por veneno, apesar da lei de Mântua que pune essa venda com a morte.
Is it even so? Then I defy you, stars!, é assim mesmo? Então eu vos desafio, estrelas! (V.1)
Na cena 3 do Ato V, arromba a tumba dos Capuleto e manda Baltasar embora com uma carta para o pai. Páris o enfrenta, e Romeu pede que fuja. A luta acontece mesmo assim, e Páris cai pedindo para ser deitado ao lado de Julieta. Romeu o reconhece, cumpre o pedido, pede perdão ao corpo de Teobaldo, beija Julieta e bebe o veneno.
Temas que encarna
Romeu encarna a paixão que a peça chama de violenta: muda de amor numa noite, casa-se num dia e, horas depois, mata e é banido. O frei o avisa duas vezes, na cena 3 do Ato II (devagar, porque tropeçam os que correm) e na cena 6 do Ato II (prazeres violentos têm fins violentos), e a velocidade de Romeu não muda.
Cada vez que algo dá errado, Romeu o atribui às estrelas ou à fortuna: o pressentimento antes do baile, o "bobo da fortuna" depois da morte de Mercúcio, o desafio às estrelas ao saber da morte de Julieta. E em cada uma dessas cenas há uma escolha dele à vista: o golpe em Teobaldo quando este volta, a decisão de voltar a Verona no instante em que ouve a notícia, sem carta do frei e sem esperar uma. Romeu fala como alguém a quem as coisas acontecem, e o texto o mostra decidindo depressa.
Relações
- Julieta: o encontro no baile vira juras no jardim, casamento na cela, uma noite e uma despedida; ele a reencontra morta, na tumba, e morre ao lado dela.
- Mercúcio: o amigo que o quer de volta à graça e que morre no duelo que Romeu recusou.
- Benvólio: o primo que tenta curá-lo de Rosalina e o que o manda fugir depois de Teobaldo.
- Teobaldo: o primo de Julieta que quer matá-lo no baile e o provoca na praça, e que ele mata; no fim, Romeu lhe pede perdão.
- Frei Lourenço: confessor, casamenteiro e autor do plano de Mântua; a carta dele não chega.
- A Ama: a mensageira do casamento, que o adverte a não levar Julieta a um paraíso de tolos.
- Páris: o rival que ele não conhece e que mata na tumba, sem querer lutar.
- Capuleto: o pai de Julieta, que no baile defende a presença dele contra Teobaldo, sem saber quem ele é para a filha.