Homero não era filósofo, mas a filosofia grega nasceu discutindo com ele. Como os poemas eram a fonte em que os gregos aprendiam o que eram os deuses, os primeiros filósofos que pensaram o divino de outro modo tiveram de enfrentá-lo.
No século VI a.C., Xenófanes acusou Homero e Hesíodo de atribuir aos deuses tudo o que entre os homens é vergonha e censura: roubar, cometer adultério e enganar uns aos outros. Pouco depois, Heráclito disse que Homero merecia ser expulso das competições e açoitado. Ao mesmo tempo, outros leitores, como Teágenes de Régio, defenderam os poemas lendo os deuses como alegorias das forças da natureza e das virtudes.
Platão levou a crítica mais longe. Na República, corta dos poemas os deuses que mentem e mudam de forma, os heróis que choram e o Hades que assusta, e no Livro X expulsa o poeta da cidade ideal, embora confesse o afeto que tinha por ele desde a infância e o cite o tempo todo nos diálogos.
Aristóteles mudou o critério. Na Poética, julga Homero como poeta, e não como mestre de verdade, e o chama de divino por ter recortado uma única ação, a ira de Aquiles, em vez de tentar contar a guerra de Troia inteira. Com ele, Homero deixa de ser julgado como código de vida e passa a ser estudado como obra de arte, que é o modo como a filosofia o lê desde então.