Uma novela em duas partes e uma revista
Memórias do Subsolo saiu em 1864 em A Época, a revista que Dostoiévski dirigia com o irmão Mikhail, e o desenho em duas partes vem das circunstâncias dessa publicação. A Primeira Parte, O subsolo, saiu no primeiro número da revista, cortada pela censura; a Segunda, A propósito da neve molhada, só ficaria pronta em maio, depois do enterro da primeira mulher do autor.
O ano das perdas
Maria Dmítrievna, a primeira mulher de Dostoiévski, morreu de tuberculose em Moscou, em 16 de abril de 1864, enquanto ele escrevia a novela. O irmão Mikhail, sobrecarregado de dívidas, teve um colapso em 6 de julho e morreu três dias depois, e Dostoiévski escolheu manter A Época viva; a revista faliu em 1865.
A polêmica com Tchernichévski
O livro responde a O que fazer?, de Tchernichévski, escrito na prisão e publicado em 1863, em três fascículos de O Contemporâneo, com o aval da própria censura, num dos erros burocráticos mais espetaculares do reinado de Alexandre II. O romance prega o egoísmo racional, a ideia de que o interesse próprio bem calculado resolve os problemas humanos, e culmina no sonho de uma utopia socialista sob a forma do Palácio de Cristal de Londres. Foi como resposta a ele que Dostoiévski começou a escrever o texto, no início de 1864.
Na leitura de Joseph Frank, a Primeira Parte tem esse alvo: o homem do subsolo aceita o determinismo utilitarista de Tchernichévski e descobre que, aceito, ele torna impossível qualquer reação moral, culpa, perdão ou vingança, porque não há mais culpado, só um fatum. A Segunda Parte, diz Frank, tem outro: o romantismo social dos anos 1840, e o episódio de Liza parodia uma cena de O que fazer? em que um herói redime uma prostituta com facilidade angélica.
O Palácio de Cristal antes do subsolo
O palácio de cristal que o narrador recusa vem de fora do livro. Dostoiévski viu o Palácio de Cristal de Londres na primeira viagem à Europa, em 1862, e o descreveu nas Notas de inverno sobre impressões de verão, de 1863, onde ele aparece como o santuário de um materialismo que se proclama o ideal final da humanidade. Frank lê as Notas de inverno como a antessala da novela: o formigueiro, o palácio e a queixa do fígado já estão ali, ainda soltos, em tom de crônica de viagem.
O corte da censura
Numa carta ao irmão, Dostoiévski se queixa de que os censores deixaram passar os trechos em que ele zombava de tudo e às vezes blasfemava e cortaram aqueles em que concluía pela necessidade da fé e de Cristo, e de que o capítulo saiu com frases truncadas que se contradizem. A carta fala do penúltimo capítulo, e Frank situa o corte no capítulo X da Primeira Parte, onde vê o rastro dele no Palácio de Cristal, que de repente muda de sentido.
Um aviso antes do texto
Antes da primeira linha, Dostoiévski pôs um aviso: o autor destas memórias e as próprias memórias são inventados, mas pessoas como ele não só podem como devem existir na sociedade em que o livro nasceu, dadas as circunstâncias em que ela se formou; o narrador, diz ele, é um representante de uma geração que vive os seus dias derradeiros. O narrador tem quarenta anos em 1864 e vinte e quatro nos fatos da Segunda Parte, o que, na conta de Frank, leva a ação a 1848, o ano em que Dostoiévski começou a frequentar o Círculo de Petrachévski.