Primeira Parte: O subsolo
Ele se declara mau e, logo no parágrafo seguinte, diz que mentiu e que nunca conseguiu sê-lo. O que o primeiro gesto garante a ele que o segundo não desfaz?
Ele conta que o prazer vinha de perceber com nitidez a própria humilhação e de saber que não há saída. O que ele perderia se a nitidez o levasse a mudar?
O camundongo se considera camundongo sem que ninguém lho peça, e o narrador chama isso de ponto importante. O que o narrador ganha quando é ele quem se rebaixa primeiro?
O homem de ação cede ao muro com sinceridade, e o narrador diz invejá-lo. O que, na posição desse homem, ele quer para si, e o que se recusa a aceitar?
O doente geme sabendo que a família já o ouve com asco e não acredita nele. O que o gemido ainda lhe dá, se ninguém mais acredita?
O narrador diz que o homem de ação se vinga porque vê nisso justiça, e que ele não vê justiça nenhuma. O que a falta dessa causa primeira tira dele, além da vingança?
Ele inveja o preguiçoso porque o preguiçoso teria uma definição positiva e poderia se respeitar. Por que não aceita a definição de tagarela, que se deu no capítulo anterior?
O amigo expõe com clareza o que a razão manda e, quinze minutos depois, faz o contrário, movido por algo interior mais forte que os seus interesses. O que esse algo tem de diferente de uma vantagem comum, a ponto de ficar fora das listas?
O narrador defende a vontade independente seja qual for o preço e aonde quer que ela leve. Se ela traz dano, o que a faz valer a pena para ele?
O narrador diz que o direito de querer o tolo vale mais que a vantagem. Esse direito é liberdade, ou é a negação dela com outro nome?
O narrador diz que o homem, se lhe provarem que é uma tecla de piano, fará algo ao contrário só para insistir em si. Esse ato mostra que ele é livre, ou apenas que reage ao que lhe foi dito?
Se a consciência demais é doença, como disse no início, por que, segundo ele, o homem não a trocaria por nenhuma satisfação?
Segundo o narrador, o homem procura dois e dois são quatro e tem medo de encontrá-lo. Por que a busca é suportável e o resultado não?
Ele aceitaria o galinheiro para fugir da chuva, mas não o chamaria de palácio. O que o título de palácio acrescentaria ao abrigo, e por que ele o recusa?
Ele pede que lhe mostrem algo melhor do que o palácio e diz que seguiria. O que essa condição permite que ele continue a recusar?
Ele admite ter inventado as falas do interlocutor. Isso enfraquece ou fortalece o que argumentou antes?
Ao longo de onze capítulos ele recusa a tabela, a vantagem e o palácio de cristal, e no fim diz que não acredita no que escreveu. O que pesa mais para quem lê, a recusa ou a retratação?
Ele diz querer verificar se um homem pode ser franco ao menos consigo mesmo. A Primeira Parte responde a essa pergunta, ou a deixa em aberto?
Segunda Parte: A propósito da neve molhada
O encontrão na Niévski custa ao homem do subsolo muito preparo, um empréstimo e uma desistência na véspera, e o oficial segue sem olhar para trás. Em que sentido, para ele, a desforra aconteceu?
O homem do subsolo diz que não havia meio-termo entre herói e lama, e que foi isso que o perdeu. O que essa regra lhe permite fazer, e o que ela lhe impede de fazer?
O homem do subsolo sabe, antes mesmo de sair de casa, que não quer vencer os colegas nem ser querido por eles, e mesmo assim vai ao jantar. O que o texto mostra que ele procura ali?
Zvierkóv responde ao pedido de perdão dizendo que o narrador não pode ofendê-lo, e minutos depois o narrador resolve esbofeteá-lo. O que a resposta tira dele, e o que a bofetada promete devolver?
Ao descobrir a casa vazia, o homem do subsolo se sente salvo da morte, embora tenha corrido até ali jurando dar a bofetada. O que o alívio diz sobre o que ele de fato queria daquela noite?
Liza responde ao quadro da família feliz dizendo que ele fala como num livro, e o homem do subsolo ouve só a zombaria. O que a frase dela diz sobre o que ele acabou de fazer, e o que ele deixa de ouvir?
O homem do subsolo sabe que fala como num livro e conta com isso para comover Liza, e o efeito é o desespero dela. O que o livro mostra que ele esperava dessa cena, e o que ele não esperava?
O homem do subsolo recusa o salário a Apolón para provar que pode e acaba mandando chamar a polícia contra si mesmo. O que o capítulo mostra que ele precisa de Apolón para poder ser o que quer ser?
Liza entende que o homem do subsolo é infeliz e o abraça, e ele, ao erguer a cabeça, sente vontade de dominá-la. O que o texto mostra que o abraço dela lhe pede, e o que ele consegue responder?
Liza deixa a nota de cinco rublos sobre a mesa, e o homem do subsolo, que não previra o gesto, corre atrás dela e para na esquina. Por que ele corre, e por que ele para?
O narrador fecha as memórias dizendo que levou até o extremo o que os leitores não levam nem até a metade. Em que ponto o texto parece dar razão a ele, e em que ponto não?
A obra inteira
O narrador se declara mau na primeira página e, poucas linhas depois, diz que mentiu e que nunca conseguiu sê-lo. Ele se define pelo defeito para ser o primeiro a nomeá-lo, ou o defeito é o único traço que consegue sustentar?
Ele diz que o sofrimento é a única causa da consciência e que o homem não a trocaria por nenhuma satisfação. Isso vale para o homem em geral, ou só explica por que ele mesmo não se cura?
Ele defende o direito de querer o tolo, o capricho, contra a vantagem calculada. Esse querer é liberdade, ou é a obediência que toma a forma de recusa do conselho?
No fim da Primeira Parte ele diz que não crê numa palavra do que escreveu e que as falas do acusador foram ele mesmo quem compôs. O que pesa mais para quem lê, a recusa que ocupou onze capítulos ou a retratação que a desfaz?
Em cada episódio da Segunda Parte o narrador ensaia a cena como se fosse de livro e a executa pior do que o roteiro. O que a lucidez dele muda, se ela acompanha tudo e não impede nada?
Liza diz que ele fala como num livro, entende que ele é infeliz e o abraça, e deixa a nota sobre a mesa. Qual desses gestos o narrador menos esperava, e o que isso diz sobre o que ele via nela?
O narrador diz ter levado ao extremo o que os leitores não levam nem até a metade. Em que ponto o texto lhe dá razão, e em que ponto ele usa a frase para dispensar-se de responder só por si?
A censura cortou a passagem em que o homem concluía pela fé e por Cristo. O livro que chegou até nós é um retrato psicológico exato, um argumento sem a conclusão, ou os dois ao mesmo tempo?