Clavis Libri

Memórias do Subsolo

Enredo

O livro inteiro, do começo ao fim. Para o resumo e a análise de cada parte, abra as partes.

Em São Petersburgo, no canto onde vive desde que se aposentou, um ex-funcionário de quarenta anos, sem nome, escreve para leitores que ele mesmo inventa e conta duas coisas: o que pensa e o que fez. A Primeira Parte é o que pensa, um monólogo contra a razão, o cálculo do interesse e o palácio de cristal, sem enredo. A Segunda é o que fez aos vinte e quatro anos, uma lembrança que a neve molhada do dia em que escreve lhe traz de volta: o encontrão num oficial da avenida Niévski, o jantar de despedida de um colega e a noite com uma moça de bordel, Liza. O arco vai da recusa de tratar o fígado à nota de cinco rublos deixada sobre uma mesa, e termina com o editor dizendo que as memórias do autor não acabam ali, mas que ali se pode parar.

Primeira Parte: o subsolo

Doente, mau e sem graça, o narrador diz que não se trata por raiva, desmente em seguida que seja mau e se define pelo que não conseguiu ser, nem mau, nem bom, nem herói, nem inseto; apresenta-se como assessor colegial que herdou seis mil rublos e se aposentou na hora (capítulo I). Explica que não chegou a ser nem inseto por ter consciência demais, que ele chama de doença, e que o prazer vinha de ver com nitidez a própria humilhação, voltando à noite ao seu canto depois de atos feios (capítulo II). Opõe o homem de ação, que cede ao muro de pedra e se tranquiliza, ao homem de consciência hipertrofiada, que se considera um camundongo e se esgueira para o subsolo; o muro é a matemática, e ele não o rompe com a testa nem se reconcilia com ele (capítulo III). Compara a sua raiva ao gemido de quem tem dor de dentes, que traz um prazer e uma mensagem: se eu não durmo, vocês também não dormem (capítulo IV). Diz que inventava ofensas e amores por tédio e que a consciência desfaz toda vingança, porque cada causa arrasta atrás de si outra, anterior; o homem de ação toma a causa próxima pela primeira e age, e ele fica na inércia (capítulo V). Sonha ser um preguiçoso respeitável, com título, carreira e um brinde ao belo e sublime, devaneio que ele mesmo vai chamar de sonhos dourados (capítulo VI). Ataca a ideia de que bastaria mostrar ao homem a sua vantagem para torná-lo bom: há milhões de fatos em contrário, e a lista dos estatísticos deixa de fora a vantagem mais vantajosa, o querer independente, custe o que custar (capítulo VII). Responde ao interlocutor que declara o livre-arbítrio dissecado pela ciência: se houver fórmula do querer, o homem será um pino de órgão, e por isso fará um ato absurdo só para provar que é homem e não tecla de piano (capítulo VIII). Diz que o homem talvez ame construir o edifício e não morar nele, que dois e dois são quatro já não é vida e sim o começo da morte, e que o sofrimento, que não cabe no palácio de cristal, é a única causa da consciência (capítulo IX). Recusa o edifício de cristal ao qual não se pode mostrar a língua às escondidas, aceitaria o galinheiro contra a chuva mas não o chamaria de palácio, e pede que lhe mostrem algo melhor; é o capítulo que, segundo a carta de Dostoiévski ao irmão, a censura cortou (capítulo X). Conclui que o melhor é a inércia consciente, retira em seguida o que disse, admite que inventou as falas do acusador e explica que escreve para si, para se livrar de uma lembrança; o gatilho é a neve molhada que cai no dia, e dela nasce a Segunda Parte (capítulo XI).

Segunda Parte: a propósito da neve molhada

Aos vinte e quatro anos, sozinho e envergonhado, o narrador entra numa sala de bilhar na esperança de ser atirado pela janela e é só deslocado do caminho por um oficial que não o vê; passa anos a odiá-lo, vende o colarinho de guaxinim do capote para comprar um de castor, pede o resto emprestado ao chefe de seção Siétotchkin e, depois de várias desistências, esbarra no oficial na Niévski de olhos fechados e volta para casa vingado, cantando árias italianas (capítulo I). Entre uma fase de desregramento e outra, refugia-se três meses em sonhos de herói, ou herói ou lama, sem meio-termo; quando já não aguenta a solidão, visita Siétotchkin e depois, numa quinta-feira, o ex-colega Símonov, sabendo que é indesejado (capítulo II). Em casa de Símonov encontra Fierfítchkin e Trudoliúbov, que o tratam como a mais comum das moscas enquanto combinam o jantar de despedida de Zvierkóv; ele se convida de repente, não o querem, e ele sabe que irá de propósito, quanto mais indelicado for. Na véspera lembra o colégio e o único amigo que teve, e sai para o jantar sem olhar para Apolón, o criado, que espera o salário (capítulo III). Chega às cinco, o jantar era às seis e ninguém o avisou; é tratado por Zvierkóv com proteção, humilha-se num brinde desastrado, desafia Fierfítchkin para um duelo que provoca gargalhadas e passa três horas andando da mesa à estufa; pede perdão a todos, ouve de Zvierkóv que nunca pode ofendê-lo, arranca seis rublos de Símonov e decide dar uma bofetada em Zvierkóv (capítulo IV). Num trenó, sob a neve molhada, ensaia a bofetada, o duelo e o perdão final e chora, sabendo que o roteiro vem de Sílvio e da Mascarada; bate à porta de uma casa de modas que serve de bordel, acha a sala vazia, os colegas já se foram, e sente alívio. Entra Liza, ainda sem nome, e ele se alegra de parecer-lhe repulsivo (capítulo V). Acorda ao lado dela às duas da madrugada, pergunta o nome, e sabe que ela tem vinte anos, é de Riga e está ali há duas semanas; conta-lhe covas cheias d'água que diz ter visto e nunca viu, pinta-lhe o futuro que a espera e, ao descrever um casamento por amor, ouve que fala como num livro (capítulo VI). Ferido, responde com o sermão mais longo da parte: o caminho de casa em casa até um porão, a morte de tísica, a cova com lama e o nome que desaparece da face da terra; sabe que fala de modo livresco e conta com isso. Liza chora de bruços no travesseiro; ele lhe dá o endereço e, já na porta, ela lhe mostra com orgulho a carta de um estudante de medicina; ele lê, não diz nada e sai (capítulo VII). Na manhã seguinte tenta esquecê-la, paga a dívida a Símonov com dinheiro de Siétotchkin e uma carta de cavalheiro, e passa dias a temer que ela venha; briga com Apolón, a quem não paga o salário só para provar que pode, até mandar chamar o inspetor contra si mesmo, e é então que Liza entra e o relógio bate sete horas (capítulo VIII). De roupão, envergonhado, manda Apolón buscar chá, chora de raiva e, quando Liza faz menção de sair, grita-lhe que riu dela na outra noite, que foi à casa dela para bater num colega e que ela foi só alguém em quem descontar; Liza entende que ele é infeliz e o abraça, e ele, ao erguer a cabeça, sente vontade de dominá-la, quase uma vingança (capítulo IX). Passado o abraço, quer a moça longe; quando ela vai embora, põe-lhe na mão uma nota, de raiva, e ela a deixa sobre a mesa; ele corre atrás dela pela rua nevada, para na esquina e volta, e nunca mais a vê. Fecha dizendo que levou ao extremo o que os leitores não levam nem até a metade, e o editor acrescenta que as memórias do paradoxalista não terminam aí, mas que aqui se pode parar (capítulo X).

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