Primeira Parte: O subsolo
Tanto o autor das memórias quanto as próprias Memórias são, é claro, inventados. Mesmo assim, pessoas como o escritor de tais notas não só podem, mas até devem existir em nossa sociedade.
Explicação e análise
Antes de o homem do subsolo abrir a boca, Dostoiévski põe diante do texto um aviso curto, assinado como observação do autor. O livro tem duas partes, e o aviso apresenta a primeira, intitulada «O subsolo», como o lugar em que esse personagem se apresenta, expõe o seu modo de ver e tenta explicar por que apareceu entre nós. A segunda parte trará as notas propriamente ditas, sobre acontecimentos da vida dele.
O aviso faz duas afirmações que parecem se contradizer. O autor e as Notas são inventados, mas gente como o escritor delas não só pode como deve existir na sociedade, dadas as circunstâncias em que ela se formou. Com isso Dostoiévski fecha de antemão a leitura do narrador como exceção ou caso clínico e põe parte da conta nas circunstâncias, isto é, no tempo e no meio que formaram o personagem. O homem é ficção, mas o tipo é real, e o leitor é avisado de que o retrato vale para além dele.
O texto sustenta duas leituras. Pode ser cautela do autor, que não quer ser confundido com um narrador desagradável e prefere deixar claro que o inventou. Pode ser também a tese do livro dita antes de o homem falar: o que vem a seguir é produto de uma sociedade, e não apenas de um temperamento, e por isso interessa a quem lê.
Sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem pouco atraente. Acho que meu fígado dói.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 30 citações de Memórias do Subsolo está na assinatura.
Não consegui me tornar não só mau, mas nem mesmo coisa alguma: nem mau, nem bom, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto.
Explicação e análise
Juro, senhores, que ter consciência demais é uma doença, uma doença de verdade, completa.
Explicação e análise
o prazer vinha justamente da consciência viva demais da própria humilhação.
Explicação e análise
Lá, no seu subsolo nojento e fedorento, o nosso camundongo ofendido, espancado e escarnecido mergulha de imediato numa raiva fria, venenosa e, sobretudo, eterna.
Explicação e análise
porque dois e dois é matemática. Experimentem retrucar.
Explicação e análise
É claro que não vou romper um muro desses com a testa, se realmente não tiver força para romper, mas também não vou me conformar com ele só porque tenho diante de mim um muro de pedra e minhas forças não bastaram.
Explicação e análise
Como quem diz: eu incomodo vocês, rasgo o coração de vocês, não deixo ninguém da casa dormir. Pois então não durmam, sintam vocês também, a cada minuto, que meus dentes doem.
Explicação e análise
eles, em consequência da sua limitação, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas primeiras e, assim, se convencem mais depressa e mais facilmente que os outros de que acharam o fundamento inabalável da sua obra, e então se tranquilizam.
Explicação e análise
O seu próprio querer, voluntarioso e livre, o seu próprio capricho, ainda que o mais selvagem, a sua fantasia, irritada às vezes até a loucura: tudo isso é justamente aquela vantagem omitida, a mais vantajosa das vantagens, que não cabe em nenhuma classificação e por causa da qual todos os sistemas e teorias se despedaçam e vão para o diabo.
Explicação e análise
a razão é só razão e satisfaz apenas a faculdade racional do homem, enquanto o querer é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todas as suas coceiras. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, acabe muitas vezes numa porcariazinha, é vida, e não apenas a extração de uma raiz quadrada.
Explicação e análise
vai se convencer de que é um homem, e não uma tecla de piano!
Explicação e análise
e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, e sim o começo da morte.
Explicação e análise
O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência.
Explicação e análise
Vocês acreditam num edifício de cristal, eternamente inabalável, isto é, num que não se possa nem pôr a língua para fora às escondidas, nem fazer figa no bolso.
Explicação e análise
Por que fui feito com esses desejos? Será que fui feito só para chegar à conclusão de que toda a minha constituição é um engodo? Será que é esse todo o objetivo? Não acredito.
Explicação e análise
No fim das contas, senhores: é melhor não fazer nada! Melhor a inércia consciente! Então, viva o subsolo!
Explicação e análise
Hoje cai neve, quase molhada, amarela, turva. [...] Pois então que seja uma narrativa a propósito da neve molhada.
Explicação e análise
Segunda Parte: A propósito da neve molhada
que sou uma mosca diante de todo esse mundo, uma mosca nojenta, imprestável, mais inteligente, mais desenvolvida, mais nobre do que todos, isso nem se discute, mas uma mosca que cede o tempo todo a todos, humilhada por todos e ofendida por todos.
Explicação e análise
Ou herói, ou lama, não havia meio-termo. Foi isso, justamente, que me perdeu.
Explicação e análise
Mas era justamente por isso que eu me enfurecia: sabia com certeza que iria; que iria de propósito; e quanto mais indelicado, quanto mais indecoroso fosse ir, mais depressa eu iria.
Explicação e análise
Ofendeu? O se-nhor! A mim! Saiba, prezado senhor, que o senhor nunca, em circunstância alguma, pode me ofender!
Explicação e análise
Cheguei até a chorar, embora soubesse com toda a exatidão, naquele mesmo instante, que aquilo tudo vinha de Sílvio e da Mascarada, de Liérmontov.
Explicação e análise
Você parece... falar como se fosse por um livro.
Explicação e análise
seu nome vai desaparecer da face da terra, como se você jamais tivesse existido nem nascido!
Explicação e análise
não quero, não quero, simplesmente não quero lhe pagar o salário, não quero porque assim eu quero, porque para isso tenho a minha vontade de senhor.
Explicação e análise
pois saiba que me envergonho, e como me envergonho, que mais do que tudo receio isso, mais até do que se tivesse roubado, porque sou vaidoso como se me tivessem arrancado a pele, e só o ar já me dói.
Explicação e análise
Ela entendeu de tudo isso o que uma mulher sempre entende antes de qualquer coisa, se ama de verdade, a saber: que eu mesmo era infeliz.
Explicação e análise
Em primeiro lugar, eu já nem podia amar, porque, repito, para mim amar significava tiranizar e ter superioridade moral.
Explicação e análise
Quanto a mim, o que fiz foi só levar até o extremo, na minha vida, aquilo que vocês não ousavam levar nem até a metade, e ainda tomavam a sua covardia por prudência e com isso se consolavam, enganando a si mesmos.
Explicação e análise
Somos natimortos, e já faz tempo que nem nascemos de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos pegando gosto. Daqui a pouco inventaremos de nascer de uma ideia.