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Memórias do Subsolo · Segunda Parte

A propósito da neve molhada

Resumo da parte

O fio desta parte é a passagem da tese para a gente. Na Primeira Parte o homem do subsolo argumenta; aqui ele conta, a partir dos vinte e quatro anos, três episódios em que a lucidez que louva não o impede de fazer justamente o que sabe ser ridículo, e em que cada passo é antes ensaiado como cena de livro. Os episódios se encadeiam por humilhação e desforra: o oficial que o desloca no bilhar sem vê-lo, o jantar de Zvierkóv a que ele se convida, e Liza, a moça do bordel a quem ele despeja a vergonha que os colegas lhe deram. A virada está no capítulo IX: Liza, em vez de responder à crueldade com raiva, entende que ele é infeliz e o abraça, e ele só consegue enxergar nisso uma troca de papéis. A parte termina sem redenção, com a escrita interrompida e a acusação voltada ao leitor.

Capítulo I: O oficial e o encontrão

Resumo do capítulo

Abrem o capítulo versos de Nekrássov, o poema do homem que arranca uma mulher perdida do vício com a palavra ardente e a vê chorar de vergonha, e depois o narrador volta aos vinte e quatro anos. O homem do subsolo vive sozinho e foge de gente; na repartição evita olhar os colegas e imagina que eles o olham com nojo. Admite agora que era ele quem sentia nojo de si (odiava o próprio rosto, que achava feio e bobo, e se esforçava por exibir nobreza), e que atribuía aos outros esse olhar. Na vida de todo dia baixa os olhos diante de quase qualquer pessoa que encontra, e é daí que tira a sua tese:

Análise

Всякий порядочный человек нашего времени есть и должен быть трус и раб. Это нормальное его состояние, Todo homem decente do nosso tempo é, e tem de ser, covarde e escravo. Esse é o estado normal dele.

A frase vem logo depois de ele se declarar covarde e escravo sem se envergonhar, e funciona como defesa: se todo homem decente é assim, o que o humilha é o preço de ser desenvolvido, e quem se mostra valente é asno. Duas leituras: autoconhecimento sem pudor, ou consolo que transforma a fraqueza em critério de mérito.

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Capítulo II: Os sonhos e a visita a Símonov

Resumo do capítulo

Terminada cada fase de desregramento, o homem do subsolo fica com náusea e remorso; afasta o remorso porque enjoa demais e acaba se acostumando, ou melhor, concordando de livre vontade em suportar. A saída que tem é refugiar-se, em sonhos, no belo e no sublime. Sonha por três meses seguidos, fechado no seu canto, e nesses dias nem se reconhece no homem que costurava, aflito, o colarinho de castor no capote. Os sonhos vêm mais doces depois do desregramento, com arrependimento e lágrimas, e trazem a fé de que alguma circunstância de fora vai abrir de repente um horizonte de atividade benéfica e pronta, e ele aparecerá à luz do dia de louro na cabeça e a cavalo branco. Papel de segundo plano ele não sabe nem conceber, e é por isso, diz, que na realidade ocupa o último sem queixa:

Análise

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Capítulo III: O jantar a que ele se convida

Resumo do capítulo

Em casa de Símonov, o homem do subsolo encontra dois outros colegas de escola, Fierfítchkin e Trudoliúbov, e nenhum deles repara nele: tratam-no como a mais comum das moscas, o que nem na escola faziam, e ele supõe que o desprezem pelo fracasso na carreira e pelas roupas gastas. Fierfítchkin, russo de origem alemã, pequeno, de cara de macaco, é um tolo que ri de tudo e seu inimigo desde as primeiras séries; Trudoliúbov é militar, alto e frio, honesto, mas reverente com qualquer sucesso e só capaz de falar de promoção, e como parente distante de Zvierkóv ganha entre eles certo peso. Discutem o jantar de despedida que darão no dia seguinte a Zvierkóv, colega que parte como oficial para o interior.

Zvierkóv foi colega de escola dele o tempo todo, e o narrador o odiava desde as primeiras séries. Na escola era um menino bonito e vivaz, que todos amavam, e o narrador o odiava justamente por isso; estudava mal, herdou duzentas almas no último ano e passou a fanfarronar, e até os que se diziam cheios de honra faziam festa a ele, não por interesse, mas por ser um favorecido da natureza. O narrador odiava a voz segura, a admiração pelas próprias piadas, o rosto bonito e tolo (pelo qual, aliás, trocaria de bom grado o seu, inteligente) e as maneiras de oficial dos anos quarenta. Uma vez, calado como sempre, investiu contra ele quando Zvierkóv se gabou de que nenhuma camponesa de sua aldeia escaparia ao direito de senhor e os outros aplaudiram, não por pena das moças, mas por verem aplaudido um inseto daqueles; venceu a discussão, mas Zvierkóv riu e ficou com o riso do seu lado, sem rancor, e depois o venceu outras vezes de passagem, enquanto ele respondia com desprezo calado. Anos depois deixou de cumprimentá-lo na rua, e o narrador o viu uma vez no teatro, de alamares, curvando-se diante das filhas de um general antigo.

Decidem cotizar-se a sete rublos para um jantar no Hôtel de Paris, no dia seguinte, às cinco. Contam três, vinte e um rublos, porque Zvierkóv não paga. É então que o homem do subsolo, achando bonito e inesperado oferecer-se de repente, e acreditando que assim os vencerá todos de uma vez e que o olharão com respeito, diz que, contando com ele, são vinte e oito. Recusam sem dizer não: Símonov, que o conhece de cor, evita olhá-lo; Fierfítchkin pergunta onde o procurariam; Trudoliúbov lembra que ele sempre esteve brigado com Zvierkóv. Ele se agarra ao argumento e responde que talvez queira ir justamente porque antes estava brigado; Trudoliúbov ironiza essas elevações, e Símonov manda anotá-lo. Quando se levantam, Fierfítchkin cochicha sobre o dinheiro, Trudoliúbov diz que, se ele quer tanto, que venha, e Fierfítchkin acrescenta que o grupo é um círculo de amigos e que talvez nem o queiram.

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Capítulo IV: O Hôtel de Paris

Resumo do capítulo

O homem do subsolo chega primeiro, às cinco em ponto, como combinaram, e não encontra ninguém: a mesa nem está posta, e os criados lhe dizem que o jantar foi marcado para as seis. Símonov esqueceu de avisá-lo da mudança de hora. Espera quase uma hora numa sala vazia, ouvindo de uma sala mais afastada a algazarra de um jantar com damas, e quando os colegas entram, às seis, alegra-se tanto ao vê-los que quase esquece de fazer cara de ofendido. Zvierkóv entra à frente, afetado, cumprimenta-o com uma amabilidade de general, cheia de cautela, e diz entre ceceios e vogais arrastadas que se admirou do desejo dele de juntar-se a eles. O narrador esperava piadas chatas e se arma contra elas; o que recebe é um tom de proteção, e a hipótese de que Zvierkóv se julgue incomparavelmente superior, sem sequer querer ofender, o sufoca mais do que qualquer insulto.

Quando Trudoliúbov pergunta se espera há muito, ele responde alto e irritado que chegou às cinco, como lhe disseram; Símonov, sem se desculpar, vai cuidar dos aperitivos. À mesa redonda Zvierkóv o interroga com um interesse que parece amparo: onde trabalha, por que deixou o antigo emprego, quanto ganha. Ele responde com grosseria e vermelho de vergonha. Zvierkóv acha o salário modesto, Fierfítchkin diz que com isso não se almoça em restaurante, Trudoliúbov diz que é pobreza, e Zvierkóv nota que ele emagreceu e mudou, olhando-lhe a roupa. Quando Fierfítchkin ri e pede que não o constranjam, ele explode: janta ali com o seu dinheiro, e não o dos outros. Fierfítchkin o ataca de volta, Zvierkóv manda parar e conta como quase se casou anteontem, uma história cheia de generais, coronéis e camaristas, em que ele está quase à frente. Todos o largam, e o homem do subsolo fica esmagado.

Pensa em se levantar e ir embora por desprezo, deixando o duelo para o dia seguinte, e fica. Bebe lafite e xerez em copos, embebeda-se depressa por falta de hábito, e com a embriaguez cresce a raiva: quer ofendê-los da maneira mais ousada e só depois ir embora. Interrompe a conversa de Zvierkóv sobre o príncipe hussardo Kólia, dono de três mil almas, para dizer que Kólia, aliás, não veio se despedir; Trudoliúbov diz que ele já está bêbado, e Zvierkóv o olha como a um inseto. No brinde, quando todos bebem, ele fica com o copo cheio, diz que quer fazer o seu discurso à parte e só depois beber, e, sem saber o que dirá, faz três pontos: odeia a frase e os fraseadores, odeia a libertinagem e os libertinos, ama a verdade, a sinceridade e a honestidade, e quer um companheirismo em pé de igualdade, não... hum. Acaba bebendo à saúde de Zvierkóv e lhe desejando seduzir circassianas e atirar nos inimigos da pátria.

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Capítulo V: O trenó na neve molhada e a casa

Resumo do capítulo

O homem do subsolo desce a escada em disparada, murmurando que enfim chegou o choque com a realidade, e se repreende no mesmo fôlego: se ri disso agora, é um canalha. Já sabe aonde os colegas foram. Diante da porta há um cocheiro de aluguel, de casaco de pano grosseiro e coberto de neve que continua a cair, morna e molhada, e uma égua pequena, felpuda e malhada, que tosse. Quando vai subir, a lembrança de Símonov quase lhe atirando os seis rublos o derruba, e ele cai como um saco no trenó de ripas. Jura que ainda há muito a fazer para resgatar tudo aquilo e que o fará, ou morrerá ali mesmo naquela noite, e manda o cocheiro seguir.

No caminho, a cabeça gira. Que os outros implorem a sua amizade de joelhos é miragem, a mesma do baile no lago de Como; por isso, resolve, tem de esbofetear Zvierkóv, e já entra pensando como: sem prefácio, direto, enquanto os outros estão na sala e Zvierkóv no sofá com Olímpia, que riu do rosto dele uma vez e o recusou. Puxar Olímpia pelos cabelos e Zvierkóv por uma orelha pela sala toda; que o espanquem e o expulsem, pois a bofetada é a iniciativa, e pela lei da honra Zvierkóv tem de lavar aquilo num duelo. Duelo ao amanhecer, pistolas compradas com adiantamento de salário, e o padrinho será o primeiro que passar na rua ou o próprio diretor, por cavalheirismo. A cada passo o enredo cresce: se Zvierkóv recusar o duelo por desprezo, ele se atira sobre ele no pátio de correio, morde-lhe a mão, grita à multidão que veja a que ponto se leva um homem desesperado. Vai preso, vai para a Sibéria, e quinze anos depois arrasta-se atrás dele, mendigo, e o acha casado e feliz em alguma cidade de província. Dirá que perdeu tudo por causa dele e atirará para o ar, perdoando-o.

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Capítulo VI: Liza, a conversa de madrugada

Resumo do capítulo

O capítulo abre com reticências e um relógio atrás da divisória que chia, como se alguém o sufocasse, e bate duas horas. O homem do subsolo acorda num quarto estreito e baixo, entulhado de guarda-roupa e de caixas, quase no escuro; a vela está no fim. Lembra tudo de uma vez e, junto, o dia lhe parece distante, como se já tivesse sobrevivido a ele. Vê então dois olhos abertos ao lado, que o observam com curiosidade e frieza, e o pensamento lhe vem como a sensação de entrar num subsolo úmido e bolorento: duas horas ao lado desse ser sem lhe dizer uma palavra, e antes isso lhe agradava, e agora vê com nojo a ideia de um vício sem amor, que começa pelo que o amor verdadeiro coroa. Pergunta o nome, para acabar logo: Liza, responde ela quase num sussurro, sem simpatia. É de Riga, russa, tem vinte anos, está ali há duas semanas; os pais são pequeno-burgueses e vivem lá. Por que deixou a casa deles? Responde apenas assim, sem mais, e ele entende que isso quer dizer: me deixe em paz, estou enjoada.

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Capítulo VII: O sermão sobre a Siênaia e a carta

Resumo do capítulo

Ferido pela observação de Liza, o homem do subsolo responde que não é livro nenhum, que ele mesmo sente nojo de tudo aquilo, e começa o monólogo mais longo da parte. Pergunta se ela acha mesmo que nunca envelhecerá e que a manterão ali para sempre; diz que acordou com nojo de estar com ela, que só bêbado se vai àquela casa, e que em outro lugar, vivendo como as pessoas de bem, ele talvez se apaixonasse, esperasse na porta, ficasse de joelhos. Ali, porém, basta assobiar para ela vir, e não é ele quem pergunta pela vontade dela, é ela quem pergunta pela dele. O que ela dá, a alma, está sendo posta em servidão junto com o corpo; o amor, o tesouro da moça, entrega a qualquer bêbado, e uma moça comprada por inteiro não tem por que ser amada. Os amantes que lhe permitem ter são brincadeira e zombaria, e um deles a engana e a rouba; ela deve à dona e continuará devendo até os hóspedes terem nojo dela, e então virão as censuras, e as colegas, que perderam a consciência e a pena, se voltarão contra ela para agradar à dona.

Ele pinta o caminho que resta: uma casa depois da outra, até a Siênaia, onde batem de passagem. Conta ter visto ali, num Ano-Novo, uma mulher à porta, posta para fora por zombaria pelas companheiras, para gelar um pouco por chorar demais, e que às nove da manhã estava bêbada, descabelada, semidespida, espancada, com sangue no nariz e nos dentes, sentada numa escada de pedra com um peixe salgado na mão, batendo o peixe nos degraus enquanto cocheiros e soldados bêbados a provocavam. Pergunta se Liza não crê que será assim; quem sabe, há dez anos, aquela também chegou fresca como um querubim. E imagina que na mesma hora, batendo o peixe nos degraus, ela se lembre dos anos limpos na casa do pai, do filho do vizinho que a esperava na estrada e jurava amá-la a vida toda. Para Liza, diz, a felicidade seria morrer cedo de tísica num canto de porão, como a defunta de hoje; e a dona talvez nem a mande ao hospital, se ainda lhe for útil. Vai pintando a morte: a água pedida, servida com xingamentos; o corpo enfiado no canto mais fedorento do porão, o corpo preparado às pressas por mãos estranhas, o caixão comprado, a bebida em memória na taberna; a cova com lama e neve molhada; os coveiros que descem o caixão aos resmungos, um mandando o outro encurtar a corda porque ele ficou de lado, e que logo a cobrem de argila azul molhada.

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Capítulo VIII: À espera de Liza, e Apolón

Resumo do capítulo

Na manhã seguinte, depois de algumas horas de sono pesado, o homem do subsolo se espanta com a sua sentimentalidade da véspera e a resolve como um acesso de nervos de mulher; pensa que não devia ter dado o endereço a Liza, mas, se ela vier, que venha. O que importa agora é salvar a reputação diante de Zvierkóv e de Símonov, e de Liza ele se esquece de manhã, atarefado. Antes de tudo precisa pagar a Símonov a dívida de ontem, e para isso recorre a Antón Antônitch, de quem pede quinze rublos; ele está de ótimo humor e os dá logo, e assina o recibo contando de passagem, com ar de farrista, que na véspera se divertiram com os amigos no Hôtel de Paris, despedindo-se de um companheiro de infância, de família boa, rico, espirituoso, e que beberam algumas garrafas a mais. Em casa escreve a Símonov uma carta de cavalheiro, leve e quase displicente, em que se acusa de tudo, atribui a bebedeira à falta de costume e a um cálice tomado antes da chegada dos outros, pede perdão sobretudo a Símonov e menciona Zvierkóv, a quem, como em sonho, lhe parece ter ofendido. Aprova com orgulho o tom, que dá a entender que ele encara a história da véspera com independência, de cabeça erguida, como um senhor que se respeita. Mentiu: não bebeu um gole antes. Põe seis rublos na carta e pede a Apolón que a leve; ao saber que há dinheiro dentro, o criado fica mais respeitoso e aceita ir.

À tarde sai a caminhar com a cabeça ainda rodando. Quanto mais cai a noite, mais suas impressões e pensamentos se misturam, e algo que não morre dentro dele, no fundo do coração e da consciência, se faz sentir como angústia ardente. Anda pelas ruas mais cheias, de gente que volta do trabalho com o rosto preocupado até a raiva, e gosta do tumulto de vintém. Dessa vez a multidão só o irrita. Volta para casa como se tivesse na alma um crime.

Um pensamento o atormenta: Liza virá. Do dia anterior só a lembrança dela o persegue à parte, e do resto da noite ele já se esqueceu e continua satisfeito com a carta. Imagina que ela veja como ele vive, o sofá de oleado de onde sai a fibra, o roupão com que não se cobre, e Apolón, que decerto a ofenderá só para ser grosseiro com ele; e ele, por hábito, covarde, passará a se cobrir com as abas, a sorrir, a mentir. Isso é ruim, mas não o pior: há algo mais grave, mais vil, que é pôr de novo aquela máscara desonesta e mentirosa. Quando chega a essa ideia, protesta que falou com sinceridade, que havia sentimento verdadeiro e que quis despertar nela sentimentos nobres. Isso não o acalma. Mesmo depois das nove, quando não pode mais vir, ela lhe aparece, sempre na mesma posição: o momento em que acendeu o fósforo e viu o rosto pálido e torcido, de olhar de mártir, com um sorriso lastimável, antinatural, torto. Ele ainda não sabe que, quinze anos depois, a verá assim.

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Capítulo IX: Liza em casa, a confissão e o abraço

Resumo do capítulo

Abre o capítulo uma epígrafe do mesmo poeta do começo, Nekrássov: o homem convida a mulher que salvou a entrar em sua casa com ousadia, livre, e como dona plena. O convite funciona como ironia sobre o que se segue. O homem do subsolo está diante de Liza, arrasado, desmoralizado e envergonhado até a náusea, sorrindo e tentando fechar com as abas o roupão felpudo e acolchoado, exatamente como imaginara nos dias de abatimento. Apolón fica ali parado dois minutos e sai, e não melhora nada. Pior é que Liza também se perturba, mais do que ele esperava. Manda-a sentar, ela obedece e fica olhando para ele, esperando alguma coisa; a ingenuidade dessa espera o enfurece, e ele se segura. Tem a certeza vaga de que ela lhe pagará caro por tudo aquilo.

Começa mal, gaguejando: a surpreendeu em estranha situação; não tem vergonha da pobreza, olha-a com orgulho, é pobre mas nobre, e, aliás, quer chá? Pede que espere, corre a Apolón, joga diante dele os sete rublos que tinha apertados no punho todo aquele tempo e lhe pede, aos sussurros e febril, que o salve: que traga da taberna chá e dez biscoitos. Diz que, se Apolón não for, fará de um homem um infeliz, e que ele não sabe que mulher é aquela, pois ela é tudo. Apolón olha o dinheiro de soslaio, sem dizer nada, e continua a enfiar a linha, e por fim, de braços cruzados à Napoleão, ele espera três minutos, pálido, suando nas têmporas. Apolón se levanta devagar, tira os óculos devagar, conta o dinheiro devagar, pergunta por cima do ombro se leva a porção inteira e sai. Voltando a Liza, o homem do subsolo pensa em fugir assim mesmo, de roupão, para onde os olhos levem.

Sentados em silêncio, ele de repente bate o punho na mesa, e a tinta derrama: vai matar Apolón. Ela se assusta; ele grita que Apolón é o seu carrasco e desata a chorar, num acesso que é de verdade, embora ele finja uma voz fraca para salvar as aparências. Liza lhe traz água, perdida; Apolón chega com o chá, que depois de tudo lhe parece de uma banalidade indecente, e sai sem olhar. Ele pergunta, trêmulo de impaciência, se ela o despreza; ela não sabe responder. Ordena com raiva que tome o chá, e jura em pensamento não dizer uma palavra, para se vingar, porque ela é a causa de tudo. Passam cinco minutos em silêncio, ele recusando-se a começar a beber só para pesar mais sobre ela. Liza então tenta romper o silêncio com o que não devia: que quer sair dali de vez. Ele sente pena da falta de jeito e da franqueza inútil dela, mas algo feio sufoca logo a pena e ainda o instiga: que tudo se perca. Mais cinco minutos, e ela pergunta, tímida e quase sem voz, se não o está atrapalhando, e começa a se levantar. A primeira faísca de dignidade ofendida o faz tremer de raiva e explodir.

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Capítulo X: O dinheiro, a fuga e o fecho

Resumo do capítulo

Um quarto de hora depois o homem do subsolo anda de um lado a outro, impaciente, e espia Liza pela fresta do biombo: ela está sentada no chão, com a cabeça apoiada na cama, provavelmente chorando. Não vai embora, e é isso que o irrita. Desta vez ela já sabia tudo. Ele a ofendera de vez, e ela adivinhou que o ímpeto dele fora vingança, nova humilhação, e que ao ódio dele, antes quase sem objeto, se somara agora um ódio pessoal e invejoso por ela. Não afirma que ela tenha entendido isso com clareza, mas entendeu por inteiro que ele era um homem sórdido e, sobretudo, incapaz de amá-la.

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