Aluísio Azevedo é o principal romancista do naturalismo brasileiro. Nascido em São Luís do Maranhão em 1857, foi caricaturista no Rio de Janeiro antes de se tornar escritor, e esse olhar de desenhista, voltado para multidões, corpos e ambientes, marca toda a sua obra. Com O Mulato, de 1881, que escandalizou a sociedade maranhense, abriu o naturalismo no Brasil. Tentou viver só da literatura, alternando folhetins de aventura com romances de observação do meio, à maneira de Zola, e deles o maior é O Cortiço, de 1890, em que a habitação coletiva do Rio de Janeiro se torna quase um organismo vivo e personagem central. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Ao entrar na carreira consular, em 1895, praticamente abandonou o romance, e morreu como cônsul em Buenos Aires, em 1913.
São Luís e o desenho
Aluísio Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão, em 14 de abril de 1857, filho do vice-cônsul português David Gonçalves de Azevedo, e irmão mais novo do dramaturgo Artur Azevedo. Em 1876 foi para o Rio de Janeiro estudar na Academia Imperial de Belas Artes e ganhou a vida como caricaturista em jornais ilustrados da Corte. O olho de desenhista ficou na prosa: os romances dele trabalham por quadros, multidões vistas de fora e figuras marcadas por um traço físico.
O Mulato e o escândalo
Com a morte do pai, voltou a São Luís em 1878. Ali publicou um primeiro romance de feição romântica, Uma lágrima de mulher (1879), e, em 1881, O Mulato, que expunha o preconceito e a hipocrisia da sociedade maranhense e causou escândalo na cidade. O livro costuma ser apontado como o marco inicial do naturalismo brasileiro. No mesmo ano Aluísio voltou para o Rio, agora para viver da escrita.
Viver da pena
No Rio dos anos 1880 Aluísio foi um dos raros escritores brasileiros a tentar viver só da literatura. Para isso escreveu em duas frentes: folhetins de enredo movimentado, publicados em jornal e pagos por capítulo, como Mistérios da Tijuca e Memórias de um condenado, e os romances em que aplicava o método naturalista, a observação do meio e do corpo à maneira de Émile Zola, com o exemplo português de Eça de Queirós ao lado. Desta segunda frente saem Casa de Pensão (1884), sobre um estudante provinciano numa pensão da Corte, O Homem (1887) e O Cortiço (1890), publicado dois anos depois da Lei Áurea e meses depois da proclamação da República.
O método aparece já na primeira página de O Cortiço, quando a estalagem nasce da lama como coisa viva:
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco
A Academia e a carreira consular
Em 1897 Aluísio esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 4. Dois anos antes, em 1895, entrara por concurso na carreira consular, e a partir daí praticamente deixou a ficção. Serviu como cônsul em vários postos fora do país, entre eles Vigo, na Espanha, Yokohama, no Japão, e a Argentina. Morreu em Buenos Aires, onde servia, em 21 de janeiro de 1913.
Como a crítica o lê
Otto Maria Carpeaux dá ao Aluísio a primazia do naturalismo na América Latina, em data e em valor, e no mesmo fôlego o chama de pouco original:
A prioridade do naturalismo latino-americano, quanto à cronologia e com respeito ao valor, cabe ao brasileiro Aluísio Azevedo; tem [...] os defeitos de todos os naturalistas menores e é pouco original, um Zola ou antes um Mirbeau do Rio de Janeiro. Mas os seus romances sugerem até hoje a impressão de “cheios de vida”
O que salva os romances, para Carpeaux, é a matéria: a vida baixa do Rio, que ninguém tinha posto em romance antes, e que fez deles também documento de sociologia histórica.