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O Cortiço · Capítulos I a II

O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Capítulo I: João Romão enriquece e levanta o cortiço

Resumo da seção

João Romão herda do patrão a venda e um conto e quinhentos em pagamento de ordenados e passa a viver de privações para enriquecer. Quando morre o companheiro de Bertoleza, quitandeira e escrava de um velho cego, ele se oferece como confidente, guarda as economias que ela juntava para a alforria, passa a mandar em tudo o que ela ganha e a morar com ela. Depois lê-lhe uma carta de liberdade que ele mesmo forjou, e o antigo senhor nunca fica sabendo; Bertoleza se crê livre e segue como caixeiro, criada e amante dele, trabalhando de madrugada à noite.

Com as economias dela compra o terreno da primeira casinha e, com o lucro da venda e o material furtado à pedreira e às obras vizinhas, ele ergue três casinhas, compra parte da pedreira e vai tomando o terreno dos fundos, até que Miranda, negociante português, compra o sobrado ao lado. Miranda se muda com Dona Estela e Zulmira para tirar a mulher do alcance dos caixeiros, pois desde o segundo ano de casado sabe do adultério dela, mas não a deixa por causa do dote, e duvida de que Zulmira seja sua filha. Quer comprar um pedaço do terreno de Romão para o quintal, e este recusa porque guarda o chão para uma estalagem enorme. Romão levanta noventa e cinco casinhas, fecha a frente com muro e portão e aluga tinas às lavadeiras, e o cortiço enche-se de gente diante do sobrado de Miranda.

Análise

a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida

Romão faz Bertoleza crer livre sem lhe devolver as economias nem lhe dar a liberdade, e só se acalma quando o velho senhor morre, três meses depois: o texto mostra que ele teme ser descoberto. O cuidado de poupar até o selo pode ser lido como o cálculo de quem não gasta nem na fraude, e a cena das lágrimas dela mostra que a única prova que Bertoleza tem da liberdade é o que ele lhe lê em voz alta.

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Capítulo II: A inveja de Miranda e o parasita Botelho

Resumo da seção

Dois anos depois, Miranda não suporta a prosperidade de João Romão: o rumor e o cheiro do cortiço chegam à sua janela, e ele, que se tinha por esperto, conclui que se prendeu a Dona Estela pelo dote enquanto o vizinho enriqueceu sem casar com ninguém. Para dar à vida um objeto e ter em que gastar dinheiro sem restituí-lo à mulher nem deixá-lo a ninguém, passa a sonhar com um título de barão, afeta escrúpulos sociais e abre a casa para festas. A filha Zulmira tem doze para treze anos, e chega de Minas Henrique, de quinze, filho de um fazendeiro que dá bons lucros à casa de Miranda; este o leva para Botafogo porque não lhe convém desagradá-lo, e Estela passa a cuidar da mesada dele, com as compras lançadas na conta do pai com comissão de usurário.

Na mesma casa vive Botelho, velho que foi corretor de escravos e perdeu a fortuna, e que agora vegeta à sombra de Miranda, cheio de rancor contra quem tem o que ele não teve. Ouve as queixas de cada um dos donos da casa contra o outro e concorda com ambos, sem repetir a nenhum o que o outro disse. Ao flagrar Estela e Henrique num canto do quintal, não os denuncia: tranquiliza-os, aconselha mais cuidado, promete proteger os negócios do rapaz com a senhora e afaga-lhe as mãos, e Henrique se afasta com repugnância.

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