Clavis Libri

Dom Casmurro

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Um romance de 1899 sobre o Rio de 1857 e dos anos seguintes

Dom Casmurro foi publicado pela Garnier em 1899, mas a história que conta se passa uns quarenta anos antes. Quem a escreve é Bento Santiago, já velho, no Engenho Novo, bairro afastado do Rio de onde vai e volta de trem à cidade (capítulo I). O próprio narrador situa a escrita perto do fim do século, quando diz que o século está a expirar (capítulo XC), e lembra que em 1882 reencontrou numa repartição da Marinha um antigo colega de seminário (capítulo LIV).

A ação começa em novembro de 1857, quando o menino Bentinho ouve atrás da porta a denúncia de que anda "metido nos cantos" com a vizinha (capítulo III), e vai até a volta de Ezequiel já adulto, muito depois de 1872, ano em que Capitu comenta os olhos dele (capítulo CXXXI). No meio ficam o casamento, em março de 1865 (capítulo CI), e a morte de Escobar, em março de 1871 (capítulo CXXII). Tudo se passa no Segundo Reinado: o Império de Pedro II durou até 1889, e o Imperador só aparece no livro de passagem, no coche que cruza o ônibus de Bentinho, e depois como sonho dele (capítulo XXIX).

A cidade e a escravidão

O cenário é o Rio de Janeiro, capital do Império: a Rua de Matacavalos, onde moram as duas famílias vizinhas (capítulo III), o Passeio Público (capítulo XXIII), a Tijuca (capítulo CI), a Glória e o Flamengo (capítulo CIV, capítulo CXVII). Os veículos marcam a posse: a sege de duas rodas do pai de Bentinho (capítulo LXXXVII), o ônibus (capítulos XXIII e XXIX) e o trem dos subúrbios (capítulo I). A escravidão é a ordem em que todos vivem, e o narrador raramente se detém nela: o cocheiro da sege é escravo da casa (capítulo LXXXVII), e os escravos pedem a bênção ao moço que parte para o seminário (capítulo LIII). Ela só acabaria em 1888, onze anos antes da publicação do livro.

A Igreja, o seminário e a promessa

A religião católica era a oficial do Império, pela Constituição de 1824, e a Igreja estava presente em toda a vida de uma casa como a de Dona Glória: é nesse mundo que uma viúva pode prometer a Deus um filho padre e ser levada a sério por parentes e sacerdotes (capítulo XI). A hierarquia aparece em cena: o internúncio, representante do papa no Rio, avisa o padre Cabral de que o papa o nomeou protonotário apostólico, título só de honras (capítulo XXXV); o bispo é consultado sobre a promessa (capítulo XCVII); e José Dias propõe uma viagem a Roma, onde só o papa poderia desligar Dona Glória do compromisso (capítulo XCV).

Agregados, bacharéis e advogados

O agregado é o morador livre e pobre que vive de favor na casa de um proprietário: José Dias chega a Itaguaí vendendo-se por médico, aceita casa e comida e fica (capítulo V). Para o rapaz de família remediada, a carreira respeitável fora do clero era o Direito. As duas faculdades do país, criadas em 1827, ficavam em São Paulo e em Pernambuco, e é a primeira que Capitu escolhe no plano de salvar Bentinho do seminário (capítulo XVIII). Ele se forma bacharel aos vinte e dois anos (capítulo XCVIII), é tratado por doutor (capítulo XCIX) e passa a advogar, com a ajuda de Escobar nas estreias do foro (capítulo CIV).

A ópera e Otelo

A ópera italiana era o espetáculo de prestígio no Rio do Segundo Reinado, e o livro a usa como modo de pensar a vida: o velho tenor Marcolini expõe a teoria de que a vida é uma ópera, com libreto de Deus e partitura de Satanás (capítulo IX). O teatro dramático entra com Otelo, tragédia de Shakespeare do início do século XVII: Bentinho dá a um capítulo o título "Uma ponta de Iago" (capítulo LXII), propõe que as peças comecem pelo fim (capítulo LXXII) e, quando enfim assiste à peça, conclui que quem devia morrer era Capitu (capítulo CXXXV).

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