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Recurso literário

Ironia dramática

O leitor ou o público sabe algo que o personagem ignora, e por isso as palavras e os atos do personagem ganham um sentido que ele mesmo não percebe.

Em Otelo

Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu.

Quem previne Otelo contra o ciúme é Iago, que o está fabricando. O público sabe disso, e por isso o "Cuidado, senhor" soa como conselho de amigo quando é, na verdade, parte da armadilha.

Ato III: A tentação e o lenço, Iago

“Minha doce Desdêmona, Sejamos prudentes, escondamos nosso amor”

O público sabe que o sonho é invenção de Iago, e por isso as palavras ternas atribuídas a Cássio ("Minha doce Desdêmona") soam falsas. Otelo, que não sabe, ouve nelas uma confissão e se entrega à fúria.

Ato III: A tentação e o lenço, Iago, contando o suposto sonho de Cássio

O lenço!

O público sabe que o lenço já passou da mão de Desdêmona para a de Iago, e Otelo não sabe. Por isso o grito "O lenço!" cobra dela algo que ela não pode devolver, e cada negativa sua soa como culpa.

Ato III: A tentação e o lenço, Otelo

Sua esposa, senhor, sua esposa casta e leal.

O público sabe que ela é mesmo "casta e leal", e Otelo não. Por isso a resposta mais sincera da peça cai em ouvidos fechados, e a verdade dita com todas as letras só confirma a certeza dele.

Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro, Desdêmona