Dizer uma coisa por meio de outra, sem palavra de comparação: em vez de dizer que algo é como outra coisa, diz-se que é. A imagem transfere para o assunto as qualidades da coisa com que foi identificado.
Em Otelo
um carneiro preto, velho / Está cobrindo a sua ovelha branca.
Iago reduz Otelo e Desdêmona a bichos: o "carneiro preto, velho" cobrindo a "ovelha branca" apresenta o casamento como acasalamento animal. A imagem não descreve, ela fere, e foi feita para acender a fúria de Brabâncio.
Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado, Iago
E é isso! Está engendrado! A noite e o inferno fundo / Trarão essa nascença monstra à luz do mundo.
O plano é descrito como um filho: "engendrado" e "nascença monstra" tratam a trama como gestação e parto. A imagem faz do mal algo gerado aos poucos por quem fala, que só vem "à luz do mundo" quando está pronto.
Ato I: Veneza, a denúncia noturna e o juízo do senado, Iago
Hum, mas quanta afinação. Eu vou afrouxar / As cordas que fazem essa melodia, que é / Tão honesta quanto eu.
O casal vira instrumento musical: o amor deles é a "melodia" e Iago promete "afrouxar" as "cordas". Desafinar o casamento é a imagem do que ele fará, desmontando uma harmonia que já existe.
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio, Iago
E co'a sua bondade, engendrarei a rede / Que enredará aos três.
A trama vira uma "rede" que "enredará aos três": Cássio, Desdêmona e Otelo ficam presos pelas ligações que há entre eles. A imagem mostra o mal como armadilha tecida com fios que as próprias vítimas oferecem, como a bondade.
Ato II: Chipre, a tempestade e a queda de Cássio, Iago
Cuidado, senhor, com o ciúme. Ele é um monstro De olho verde que vive a escarnecer da carne Que o nutriu.
O ciúme é chamado de "monstro" de "olho verde" que zomba da "carne que o nutriu". A imagem dá corpo e olhar a um sentimento e já anuncia o que ele fará com quem o alimenta.
Ato III: A tentação e o lenço, Iago
Um homem com chifres é um monstro, é uma besta.
Otelo chama o homem traído de "monstro" e "besta", como se a traição o desfizesse como pessoa. A imagem faz da suspeita de adultério uma queda de humano a animal e mostra como ele mede a própria honra.
Ato IV: A humilhação e o canto do salgueiro, Otelo
Poderei restaurar. Mas morta a tua luz, [...] Nunca mais poderei fazê-la irromper.
A "luz" de Desdêmona é a sua vida, que Otelo compara a algo que se apaga e que não se religa depois de "morta". A imagem faz do assassinato um gesto de apagar e mostra que ele sabe o que destrói.