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Crime e Castigo

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Um romance em folhetim

Crime e Castigo saiu em folhetim no Mensageiro Russo, a revista de Mikhail Katkov, ao longo de 1866, e o desenho das partes vem daí: cada uma fecha num ponto de tensão, porque o leitor esperava a seguinte. Dostoiévski propôs a história a Katkov em setembro de 1865, preso num hotel de Wiesbaden sem dinheiro depois de perder na roleta, como uma novela curta sobre um estudante que mata uma usurária. Ela cresceu até virar o romance, e o livro foi o mais lido do ano. Em abril de 1866, um ex-estudante, Dmítri Karakózov, atirou no tsar Alexandre II, e o atentado deu ao romance uma atualidade que ninguém tinha previsto.

Como o romance nasceu

O texto passou por três versões: um diário em primeira pessoa, depois uma confissão narrada da prisão e, por fim, a narração em terceira pessoa, que não abandona Raskólnikov um segundo e o deixa revelar-se aos poucos, inclusive a si mesmo. A troca não foi de estilo: com o narrador de fora, quem discute a lucidez de Raskólnikov discute um efeito construído, e não o relato dele sobre si.

São Petersburgo depois da emancipação

A cidade do romance é a da década de 1860, depois da libertação dos servos em 1861: inchada de gente vinda do interior, com cortiços, tabernas, pátios fechados e escadas escuras. A praça Siénnaia, o mercado do feno, é o centro desse mundo, e metade das cenas decisivas acontece num raio de poucas quadras dela. Raskólnikov conta setecentos e trinta passos da sua porta à porta da penhorista.

A reforma judiciária de 1864

Dois anos antes do romance, a Rússia reformou a justiça: vieram o júri, o processo oral e os advogados de defesa, e o juiz de instrução, cargo criado em 1860 para investigar antes do julgamento, ganhou lugar no novo processo. É dessa figura que sai Porfiri Pietróvitch, e é por ela que o livro pode ter um duelo de inteligências em vez de uma perseguição.

O alvo: o egoísmo racional

O romance responde a uma ideia que circulava entre os jovens radicais: o egoísmo racional de Tchernichévski, exposto em O que fazer?, de 1863, segundo o qual o interesse próprio bem calculado produz o bem de todos. É a doutrina que Lújin repete na sala de visita e que Liebeziátnikov caricatura, e a teoria de Raskólnikov é a versão dela levada ao sangue: a aritmética que troca uma vida por cem.

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