Primeira Parte: O crime
tudo está nas mãos do homem, e ele deixa tudo passar rente ao nariz, unicamente por covardia... isso já é um axioma
Explicação e análise
Raskólnikov, estudante pobre de Petersburgo, acaba de descer a escada de casa quase correndo, para não cruzar com a senhoria a quem deve dinheiro. Está a caminho da casa de uma velha penhorista, onde vai fazer o que chama de ensaio de um plano que rumina há um mês. Ainda na rua, falando sozinho, ele tira da própria fuga uma regra geral.
A frase mostra um homem que transforma uma vergonha pequena numa lei do mundo. Fugir de uma credora lhe parece prova de que o único obstáculo entre o homem e o que ele quer é a covardia, e a palavra axioma dá à ideia o ar de coisa que dispensa demonstração. Há aqui orgulho e urgência: se o que falta é só ousadia, então ousar passa a ser dever, e o plano deixa de ser brincadeira para virar teste de caráter. Ao mesmo tempo, o próprio Raskólnikov desmente a regra logo depois, acusando-se de falar demais para não fazer nada e chamando o projeto de fantasia. Quem lê percebe que o pensamento anda mais depressa do que a vontade, e que ele procura na teoria a força que o corpo ainda não tem.
O texto sustenta duas leituras. Pode ser uma incitação, com que ele se empurra para a ação chamando de covardia o que talvez fosse prudência. Pode ser também uma defesa antecipada: se tudo depende de coragem, qualquer recuo futuro será só fraqueza dele, e não um erro da ideia.
Entende o senhor, entende, prezado senhor, o que significa quando já não existe mais para onde ir?
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 35 citações de Crime e Castigo está na assinatura.
Mas o pobre menino já não se lembra de si. Aos gritos abre caminho pela multidão até a égua, abraça o focinho dela, morto, ensanguentado, e o beija, beija nos olhos, nos lábios...
Explicação e análise
Mate-a e fique com o dinheiro dela, para depois, com a ajuda dele, dedicar-se ao serviço de toda a humanidade e da causa comum: [...] Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!
Explicação e análise
Era como se tivesse prendido um pedaço da roupa na roda de uma máquina, e ela começasse a puxá-lo para dentro
Explicação e análise
Tirou o machado por inteiro, ergueu-o com as duas mãos, mal sentindo a si mesmo, e, quase sem esforço, quase mecanicamente, baixou-o sobre a cabeça, com o lado cego
Explicação e análise
Segunda Parte: O inquérito
teve a impressão de que, naquele instante, tinha cortado a si mesmo, como com uma tesoura, de todos e de tudo
Explicação e análise
a ciência, por sua vez, diz: ama, antes de todos, só a ti mesmo, pois tudo no mundo se funda no interesse pessoal
Explicação e análise
a palavra terrível, como o ferrolho da porta naquele dia, não parava de pular em seus lábios: já ia escapar, era só soltá-la, era só pronunciá-la!
Explicação e análise
há vida! Por acaso não vivi agora mesmo? Ainda não morreu a minha vida junto com a velha anciã!
Explicação e análise
Terceira Parte: A teoria
as pessoas se dividem de certa forma em ordinários e extraordinários. Os ordinários têm de viver obedecendo e não têm direito de transgredir a lei, pois são, veja só, ordinários. Já os extraordinários têm o direito de cometer todo tipo de crime e de transgredir a lei como quiserem, justamente por serem extraordinários
Explicação e análise
Eu simplesmente insinuei que o homem extraordinário tem o direito... isto é, não o direito oficial, mas ele mesmo tem o direito de permitir à sua consciência transpor... certos obstáculos, e unicamente no caso em que a execução da sua ideia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija
Explicação e análise
A alma viva vai pedir vida, a alma viva não vai se submeter à mecânica, a alma viva é desconfiada, a alma viva é retrógrada!
Explicação e análise
O assassino é você
Explicação e análise
não foi uma pessoa que eu matei, foi um princípio! O princípio, esse eu matei, mas transpor não transpus, fiquei deste lado... Só o que consegui foi matar
Explicação e análise
eu sou mesmo um piolho
Explicação e análise
Quarta Parte: O cerco
em vez de tudo isso, imagine só, haverá lá um quartinho só, algo como uma casa de banho de aldeia, negra de fuligem, com aranhas em todos os cantos, e pronto: essa é a eternidade inteira
Explicação e análise
Não foi diante de você que me curvei, foi diante de todo o sofrimento humano que me curvei
Explicação e análise
E o que eu seria sem Deus?
Explicação e análise
Juntos estamos amaldiçoados, e juntos iremos!
Explicação e análise
Já viu uma mariposa diante da vela? Pois ele vai ficar, vai ficar o tempo todo à minha volta, dando voltas como em torno da vela [...] e vai apertando, apertando o raio, e zás! Entra voando direto na minha boca
Explicação e análise
Liberdade e poder, e principalmente poder! Sobre toda a criatura trêmula e sobre todo o formigueiro!.. Eis o objetivo!
Explicação e análise
Quinta Parte: A confissão
Essa Lisavieta… ele não queria matar… Ele a… matou sem querer… Queria matar a velha… quando ela estava sozinha… e chegou… E aí entrou Lisavieta… Aí ele… matou ela também
Explicação e análise
eu precisava saber então, e saber depressa: sou um piolho, como todos, ou um homem? Vou conseguir transpor ou não vou! Ouso me abaixar e pegar ou não? Sou uma criatura trêmula ou tenho o direito…
Explicação e análise
Foi a velhota que eu matei? Foi a mim que matei, e não a velhota! Ali mesmo, de uma vez só, liquidei a mim, para sempre!..
Explicação e análise
Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida
Explicação e análise
Chega!.. Está na hora!.. Adeus, coitada!.. Esgotaram a velha égua!.. Rebentou-se!
Explicação e análise
Sexta Parte: A entrega
Como, quem matou?..., repetiu ele, como se não acreditasse nos próprios ouvidos, ora, o senhor matou, Rodion Románitch! O senhor mesmo matou...
Explicação e análise
não ria disso, no sofrimento há uma ideia. Mikolka é que tem razão
Explicação e análise
que eu matei um piolho asqueroso e nocivo, uma velhota agiota que não serve a ninguém, por cuja morte se perdoam quarenta pecados, que sugava a seiva dos pobres, e isso é que é crime? Não penso nele e não penso em lavá-lo
Explicação e análise
Isto é, então, o símbolo de que tomo a cruz sobre mim, he-he! E é verdade, até agora sofri pouco!
Explicação e análise
Pôs-se de joelhos no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade
Explicação e análise
Fui eu que matei, naquela ocasião, a velha mulher de funcionário e a irmã dela, Lisavieta, com um machado, e roubei
Explicação e análise
Epílogo: A ressurreição
ele não se arrependia de seu crime
Explicação e análise
cada qual achava que a verdade se encerrava nele, e só nele
Explicação e análise
O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro
Explicação e análise
mas aqui já começa uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu renascimento gradual, de sua passagem gradual de um mundo a outro, do contato com uma realidade nova, até então inteiramente desconhecida. Isso poderia formar o tema de um novo relato, mas o nosso relato de agora está encerrado