Pergunta feita sem esperar resposta, porque a resposta já está implícita, ou porque o que importa é a dúvida que ela expõe.
Em Hamlet
Vedes como, com a isca da mentira, / Pescastes o peixe da verdade?
“Vedes como...?” não espera resposta: Polônio só quer que Reinaldo admire o truque. A pergunta mostra a vaidade de quem se acha mestre em espionar e já dá o assunto por provado.
Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro, Polônio, a Reinaldo
Por Hécuba! O que Hécuba é para ele, ou ele para Hécuba, Que o faça chorar por ela? O que ele faria Se tivesse o motivo e a deixa para a fúria Que eu tenho?
“O que Hécuba é para ele...?” e “O que ele faria...?” são perguntas cuja resposta Hamlet já conhece: o ator chora sem motivo e ele, com motivo, não age. A dúvida exposta é a dele.
Ato II: A loucura fingida e a armadilha do teatro, Hamlet, sozinho
Nenhum, pois ainda estou de posse Dos benefícios pelos quais matei… Minha coroa, minha própria ambição e minha rainha. Pode-se obter o perdão conservando os lucros da ofensa?
“Pode-se obter o perdão conservando os lucros da ofensa?” não espera resposta, porque a resposta é não. A pergunta faz Cláudio condenar a si mesmo com as próprias palavras.
Ato III: A Ratoeira e a morte de Polônio, Cláudio, sozinho
Como fico eu, então, / Que tenho o pai assassinado, a mãe desonrada, / Fortes estímulos da razão e do sangue, / E deixo estar?
“E deixo estar?” é uma pergunta cuja resposta Hamlet já sabe e condena. Depois de listar “pai assassinado” e “mãe desonrada”, a pergunta vira acusação contra a própria inércia.