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Inferno

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

A viagem acontece em 1300

A ação é datada na Semana Santa de 1300, que a tradição situa na Sexta-feira Santa, e 1300 foi ano de Jubileu: o papa Bonifácio VIII decretou um Jubileu, com remissão dos pecados a quem fosse a Roma, e a cidade se encheu de peregrinos, Dante entre eles. A data importa para a leitura, porque tudo o que acontece depois de 1300 aparece no poema como profecia na boca dos mortos, inclusive o exílio do próprio Dante, que já o vivia quando escreveu.

Florença dividida

Dante nasceu em Florença em 1265, em família de posses mas sem nobreza, que reivindicava origem numa das famílias fundadoras da cidade. Florença se dividia entre guelfos, partidários do papa, e gibelinos, partidários do imperador. No poder, os guelfos se partiram em brancos, ligados à família Cerchi e defensores da participação popular, e negros, ligados à família Donati e mais próximos do papa. Dante era guelfo branco. Lutou na cavalaria florentina em Campaldino, em 1289, e em 1300 foi um dos seis priores, magistratura de cerca de dois meses, eleita pelas corporações para tirar poder da nobreza.

O banimento

Durante o priorado de Dante, os priores exilaram chefes dos dois partidos, entre eles o poeta Guido Cavalcanti, amigo de Dante, que contraiu malária e morreu. Corso Donati, chefe dos negros, conspirou com Bonifácio VIII, que mandou Carlos de Valois a Florença como pacificador. Em outubro de 1301 os brancos enviaram embaixadores ao papa, possivelmente com Dante entre eles; enquanto o papa os mantinha à espera, Carlos de Valois entregava a cidade aos negros, que baniram os brancos. Dante foi condenado ao exílio, a uma multa pesada e à perda dos bens, acusado de ser gibelino e de ter desviado dinheiro público. Passou por Verona, onde foi acolhido por Bartolomeo della Scala, e por Bolonha, mudando de cidade e servindo a vários senhores, e morreu exilado, em Ravena.

Boa parte do Inferno é o acerto de contas dessa derrota: Dante põe florentinos vivos e mortos dentro do poema e faz os mortos julgarem os vivos que ainda governam a cidade, e os mortos que falam com ele, de Ciacco a Brunetto, anunciam o que lhe vai acontecer.

Dante antes do Inferno

Estudou o trívio e o quadrívio e leu os clássicos, entre eles Virgílio, Ovídio, Lucano, Cícero e Estácio; Brunetto Latini, que reaparece no canto XV, foi um de seus mestres. Desde os dezessete anos circulavam sonetos seus, do tempo do amor cortês. Escreveu a Vida Nova, poemas dedicados a Beatriz Portinari, que segundo a tradição conheceu aos nove anos e que morreu em 1290, aos vinte e quatro, e o Convívio, em que liga Beatriz à Teologia e uma segunda mulher, a Donna Gentile, à Filosofia. Em latim, começou o De Vulgari Eloquentia, em defesa do idioma vernáculo, o mesmo em que escreveu o poema.

Uma viagem ao outro mundo já era um gênero

A viagem de um vivo ao mundo dos mortos era tema comum na Idade Média, usado para educar pelo medo do inferno, e Dante não a inventou do nada. O modelo mais próximo é o canto VI da Eneida, em que a Sibila leva Eneias ao submundo, onde ele reencontra o pai, Anquises, e vê o futuro de Roma; a Odisseia tem outra descida, no canto XI. O estudioso espanhol Miguel Asín Palacios apontou, em 1919, semelhanças entre a Comédia e narrativas árabes anteriores sobre a viagem ao além.

Nos dois poemas antigos o herói desce ao mundo dos mortos e volta como foi. Dante é o único que volta mudado, porque a viagem dele é a única que atravessa os três reinos até o fim, e o Inferno é a primeira etapa dessa mudança.

Como o Inferno está montado

O Inferno é um funil escavado sob Jerusalém, que desce em nove círculos até o centro da Terra. A ordem dos círculos é a que Virgílio explica no canto XI, apoiado na Ética de Aristóteles:

A ordem afirma que os pecados do desejo são os mais leves e os da inteligência corrompida, os mais graves. Dante põe o luxurioso perto da entrada e o traidor no fundo porque a fraude usa aquilo que nos torna semelhantes a Deus para desfazer o vínculo entre as pessoas.

O título, a língua e a forma

O poema se chama Commedia; o «Divina» foi acrescentado depois e é atribuído a Boccaccio. Está escrito em toscano vulgar, e não em latim, e é por essa escolha que existe o italiano literário. A estrofe é a terza rima, ABA BCB CDC, em que cada estrofe prende a seguinte por uma rima e a corrente só fecha no último verso. O primeiro dos 34 cantos do Inferno é o prólogo do poema inteiro; os três reinos têm 100 cantos no total.

Um poema com mais de um sentido

Em carta a Cangrande della Scala, que acompanha a dedicatória do Paraíso, Dante diz que o sentido da obra não é simples, mas polissêmico, porque um é o sentido literal e outro o das coisas significadas. O próprio Inferno avisa, no canto IX, que há uma doutrina escondida sob o véu dos versos.

A alegoria não é ornamento colado ao poema: é o instrumento com que Dante pôs dentro da visão do outro mundo tudo o que existe, de Beatriz e das ruas de Florença ao papa e ao imperador, e por isso os episódios de carne e sangue, como Francesca, Ugolino e Ulisses, sustentam a doutrina em vez de competir com ela.

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