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Inferno · Cantos XXVII a XXX

Guido, Maomé, os falsários

Resumo dos cantos

Nestes quatro cantos ninguém fala sem querer algo. Guido da Montefeltro só responde porque calcula que o que disser morre no fundo do Inferno; Maomé e Pier da Medicina mandam recado ao mundo, e Mosca quer ser lembrado; mestre Adão e Sinon se esmurram como dois homens de bar, e Dante os escuta com tanta atenção que Virgílio quase perde a paciência. A matéria é a fraude em três formas: o conselho que usa a inteligência para enganar, a discórdia semeada entre quem estava unido, a falsificação do que tinha valor (o metal, a pessoa, a moeda, a palavra). Em cada uma a pena desenha o pecado: o conselheiro arde escondido numa chama, o cismático é partido ao meio, o falsário apodrece com a doença daquilo que contrafez. O peregrino também é posto à prova: sente pena de Geri del Bello, soma uma maldição ao que Mosca diz, escuta uma briga com gosto demais e é repreendido, e é a vergonha que o poema usa para medir até onde ele já foi. A pergunta que a parte deixa é a que o próprio narrador levanta no canto XXVIII, quando diz que só a consciência o assegura de contar o que viu: o que garante, num poema cheio de falsários, a palavra de quem o escreve?

Canto XXVII: Guido e a absolvição prometida

Resumo do canto

A chama de Ulisses e Diomedes se aquieta e se afasta com licença de Virgílio, quando outra, que vinha atrás, faz Dante voltar os olhos para o seu cimo: dela sai um ruído confuso, como o do touro de bronze que mugiu com o pranto do próprio inventor, o primeiro a ser queimado dentro dele. Sem caminho para sair do fogo, a voz vai se convertendo em palavras na medida em que a ponta da chama as sacode. É Guido da Montefeltro, que ouviu Virgílio despedir Ulisses em lombardo e pede ao poeta que fique um pouco: quer saber se a Romanha, a terra vizinha das montanhas entre Urbino e as nascentes do Tibre, de onde ele vem, está em paz ou em guerra. Virgílio cutuca Dante e manda que fale ele, porque aquele é «latino», italiano como Dante, e a pergunta é sobre o presente.

Análise

Virgílio fala aos antigos (Ulisses era dos seus) e deixa ao vivo o que é de hoje: só quem andou pela Romanha há pouco sabe responder. O gesto também põe Dante na posição de quem informa e é informado por um condenado, e é por isso que o canto todo depende de uma conversa entre dois italianos.

Dante tinha a resposta pronta. Diz que a Romanha nunca esteve sem guerra no coração de seus tiranos, mas que nenhuma estava aberta quando a deixou, e percorre as cidades de cima a baixo: Ravena, sob a águia dos Polenta; Forlì, sob as garras verdes de quem a governa; Rimini, sob os dois mastins de Verrucchio; Faenza e Imola, sob o leãozinho do ninho branco, que muda de partido do verão ao inverno; Cesena, entre a tirania e a liberdade. Termina pedindo que ele diga quem é. Guido só aceita responder depois de uma conta, que o poema deixa à vista:

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Canto XXVIII: Os semeadores de discórdia

Resumo do canto

Dante abre o canto dizendo que ninguém, nem em prosa solta, conseguiria contar por inteiro o sangue e as feridas que acabou de ver, nem se juntassem todos os que sangraram nas guerras da Puglia (a dos romanos, descendentes dos troianos, a longa guerra que deixou tantos anéis, as de Roberto Guiscardo, de Ceperano e de Tagliacozzo) e mostrassem cada membro furado ou cortado: nada igualaria o modo sujo da nona vala. Ali um homem está aberto do queixo até onde se solta o vento, com as tripas penduradas entre as pernas, e, ao ver que Dante o olha, rasga o peito com as mãos para lhe mostrar o que é:

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Canto XXIX: Geri del Bello e os alquimistas

Resumo do canto

Os olhos de Dante, embriagados pela multidão e pelas feridas, querem ficar ali chorando. Virgílio o repreende: por que olhar ainda para as sombras tristes mutiladas, se não fez assim nas outras valas? Que pense, se acha que vai contá-las, que o vale gira vinte e duas milhas; a lua já está sob os pés dos dois, o tempo que lhes foi concedido é pouco, e há mais a ver do que Dante vê. Dante responde que, se o guia tivesse atentado à causa de seu olhar, talvez o deixasse ficar: ele crê que um espírito do seu sangue chora ali a culpa que tanto custa. Virgílio diz que o viu ao pé da pontezinha, apontando para Dante e ameaçando com o dedo, e ouviu chamá-lo Geri del Bello; mas Dante estava tão preso a Bertran de Born, o que foi senhor de Altaforte, que não olhou para lá. Dante então diz o que entende:

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Canto XXX: Mestre Adão, Sinon e a vergonha de Dante

Resumo do canto

O canto abre com duas loucuras da mitologia para medir o que vem. Atamante, no tempo em que Juno se irava contra o sangue de Tebas por causa de Sêmele, viu a mulher com um filho em cada mão, gritou que estendessem as redes para pegar a leoa e os leõezinhos, esmagou Learco numa pedra e a mulher se afogou com o outro; Hécuba, depois de ver Polixena morta e Polidoro na praia, enlouqueceu e latiu como cão. Nenhuma fúria de Tebas ou de Troia foi tão cruel, diz o poeta, quanto duas sombras nuas e lívidas que correm mordendo como o porco solto do chiqueiro: uma alcança Capocchio e lhe crava as presas no pescoço, arrastando-lhe a barriga no chão duro. O aretino que ficou, tremendo, explica: aquele duende é Gianni Schicchi, que corre raivoso assim, estropiando os outros, e a outra é a alma antiga de Mirra, que ficou amiga do pai fora do amor devido, disfarçada em forma alheia, como o outro se disfarçou em Buoso Donati, testando e dando ao testamento a norma, para ganhar a dona da tropa (a melhor égua do rebanho, dizem os comentadores).

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Leitura do bloco de cantos

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