Clavis Libri

Inferno

Enredo

A cântica inteira, do começo ao fim. Para o resumo e a análise de cada parte, abra os blocos de cantos.

Na Semana Santa de 1300, ano do Jubileu, Dante, a meio do caminho da vida, se vê numa selva escura sem saber como entrou e não consegue subir o monte iluminado que vê adiante. O poeta romano Virgílio, a quem ele tem por mestre, vem em seu socorro e propõe um caminho mais longo: atravessar o Inferno, o reino dos condenados, e sair do outro lado. A cântica é essa descida em nove círculos, que Dante conta em primeira pessoa e que o move, no começo, pelo medo de ficar na selva e, depois, pela vontade de ver e entender cada pecado, até o fundo, onde só se sai passando pelo corpo de Lúcifer.

Cantos I a IV: a selva e a porta

Dante é barrado na subida do monte por uma onça, um leão e uma loba; a loba, que nunca se sacia, o empurra de volta para a selva (canto I). Virgílio aparece, diz que a loba só morrerá quando vier o veltro, um libertador futuro, e propõe guiá-lo pelo Inferno. Dante hesita, por não se achar digno de uma viagem que só Eneias e Paulo fizeram, e Virgílio conta que foi Beatriz, mandada por Lúcia e por uma dama do céu, quem desceu ao Limbo para pedir que o guiasse; Dante se levanta confiante (canto II). Chegam à porta do Inferno, que manda deixar toda esperança, e passam pelo vestíbulo, onde correm atrás de uma insígnia os que viveram sem infâmia e sem louvor, recusados pelo céu e pelo inferno profundo. Caronte se nega a levar um vivo pelo Aqueronte, Virgílio o cala, e Dante cai como quem adormece (canto III). Acorda no primeiro círculo, o Limbo, onde estão, sem tormento, os que não pecaram mas não foram batizados, Virgílio entre eles; Homero, Horácio, Ovídio e Lucano fazem de Dante o sexto entre eles, e do alto de um prado ele vê heróis e filósofos antes de Virgílio levá-lo ao ar escuro do segundo círculo (canto IV).

Cantos V a VIII: os incontinentes

No segundo círculo, Minos julga as almas e as manda ao círculo que lhes cabe, e uma tempestade que nunca para arrasta os luxuriosos. Movido de piedade, Dante fala com dois que vão juntos, Francesca e o companheiro, que a tradição chama Paolo; ela conta que o amor os prendeu, que um beijo os venceu quando liam juntos a história de Lancelote, e que Caína espera quem os matou. O outro chora enquanto ela fala, e Dante cai como corpo morto (canto V). No terceiro círculo, uma chuva fria e eterna cai sobre os gulosos, que Cérbero esfola; o florentino Ciacco prediz a ruína de Florença, dividida por soberba, inveja e avareza (canto VI). No quarto, avarentos e pródigos rolam pesos com o peito e se acusam, e Virgílio explica a Fortuna como a ministra que Deus pôs para mudar os bens de gente em gente (canto VII). No quinto, os que a ira venceu se batem na lama do Estige, e o barqueiro Flégias leva os poetas de barca até a cidade de Dite. No caminho, Filippo Argenti pergunta quem vem antes da hora; Dante o amaldiçoa, Argenti estende as mãos à barca, Dante diz que gostaria de vê-lo afundado e Virgílio o louva. Mais de mil caídos do céu fecham as portas de Dite a Virgílio, que volta de olhos baixos e promete que a ajuda já desce pela encosta (canto VIII).

Cantos IX a XII: a cidade de Dite

Diante das portas fechadas, três Fúrias aparecem na torre e chamam Medusa; Virgílio manda Dante virar o rosto e lhe cobre os olhos com as próprias mãos. Um anjo atravessa o Estige a pé enxuto e abre a porta com uma varinha, sem dar explicação (canto IX). Dentro, num campo de sepulcros em brasa, ficam os hereges. Farinata degli Uberti se ergue do túmulo como quem tem o Inferno por assunto menor e discute política com Dante; ao lado, o pai do poeta Guido Cavalcanti pergunta pelo filho e, ao ouvir Dante falar dele no passado, conclui que morreu, cai de costas e não reaparece (canto X). Na borda de um abismo, enquanto esperam o fedor passar, Virgílio explica como o Inferno se ordena: violência e fraude, e a fraude pesa mais (canto XI). Descem pelo desmoronamento, passam pelo Minotauro e chegam ao rio de sangue, onde os centauros flecham quem sai do sangue mais do que a culpa permite, e Nesso os guia pelo vau (canto XII).

Cantos XIII a XVII: os violentos

No segundo giro do sétimo círculo, os suicidas viraram árvores de um bosque sem trilha, onde as Harpias se alimentam das folhas. Dante quebra um galho, o tronco sangra e fala: é, segundo a tradição, Pier delle Vigne, chanceler de Frederico II, que se matou depois de cair em desgraça por inveja alheia (canto XIII). No terceiro giro, uma chuva de fogo cai sobre areia árida, e Capaneu, que desafiou Júpiter, grita que continua o mesmo que foi vivo; Virgílio explica que os rios do Inferno nascem do pranto de um velho de Creta (canto XIV). Na margem de um riacho, Dante reconhece o seu antigo mestre, Brunetto Latini, que lhe prediz a inimizade de Florença e lhe entrega o Tesoro como único bem que lhe resta (canto XV). Três cavaleiros florentinos pedem que Dante fale deles quando voltar às estrelas, e Virgílio pede a corda que Dante trazia e a atira no abismo (canto XVI). Do abismo sobe Gerião, de rosto de homem justo e corpo de serpente; Dante vê os usurários, cada um com uma bolsa no pescoço, e os dois descem na garupa da fera (canto XVII).

Cantos XVIII a XXII: as cinco primeiras valas

Gerião os deixa em Malebolge, o oitavo círculo, cortado em dez valas de pedra escura. Na primeira, demônios açoitam os sedutores, como Venedico Caccianemico, que levou Ghisolabella a um marquês; na segunda, os aduladores estão mergulhados em esterco (canto XVIII). Na terceira, os simoníacos estão enfiados de cabeça para baixo em buracos, com os pés em chamas; um deles, que a tradição lê como o papa Nicolau III, toma Dante por Bonifácio VIII, e Dante o censura por vender o que é de Deus (canto XIX). Na quarta, os adivinhos andam com o rosto virado para as costas; Dante chora, e Virgílio o repreende (canto XX). Na quinta, o piche ferve sobre os que venderam cargos públicos, vigiados pelos Malebranche, dez demônios que Malacoda manda escoltar os poetas (canto XXI). Um navarrês fisgado engana os guardas e se solta, e dois demônios, brigando por causa disso, caem no piche (canto XXII).

Cantos XXIII a XXVI: hipócritas, ladrões e Ulisses

Fugindo dos demônios, os poetas descem à sexta vala, onde os hipócritas andam sob capas douradas por fora e de chumbo por dentro; um frade desmente o que Malacoda dissera sobre o caminho, e no chão, crucificado, está o que aconselhou matar um homem pelo povo (canto XXIII). Na sétima, serpentes picam os ladrões; Vanni Fucci, que roubou uma sacristia, prediz a Dante a derrota dos Brancos para que ele sofra (canto XXIV) e termina erguendo as figas contra Deus, e, de três ladrões, dois se fundem ou trocam de forma com serpentes e o terceiro fica como estava, num desafio de Dante a Lucano e a Ovídio (canto XXV). Na oitava, cada conselheiro fraudulento arde dentro da própria chama, e numa delas, de ponta dividida, estão Ulisses e Diomedes. Ulisses conta como, depois de deixar Circe, convenceu os companheiros a passar além das Colunas de Hércules em busca de virtude e conhecimento, e como um turbilhão os afundou à vista de uma montanha (canto XXVI).

Cantos XXVII a XXX: Guido, Maomé e os falsários

A chama de Guido da Montefeltro só fala porque ele acha que ninguém volta do fundo para contar; ele diz que foi soldado e depois frade franciscano, e que o papa, que a tradição lê como Bonifácio VIII, o absolveu antes do pecado em troca de um conselho fraudulento, mas um diabo o levou assim mesmo (canto XXVII). Na nona vala, um demônio retalha os semeadores de discórdia, entre eles Maomé, aberto do queixo ao ventre, Mosca, cujo conselho a tradição liga à divisão de Florença em partidos, e Bertran de Born, que carrega a cabeça cortada pelos cabelos, como uma lanterna (canto XXVIII). Dante quer ficar olhando, Virgílio o apressa, e Virgílio conta ter visto de longe Geri del Bello, parente de Dante, apontá-lo com o dedo; Dante entende que ele passou sem falar porque morreu sem vingança; na última vala, os falsários jazem doentes (canto XXIX). Mestre Adão, falsário de moedas, e Sinon, o grego que enganou Troia, trocam socos e insultos; Dante os escuta com tanto gosto que Virgílio o repreende com raiva, e a vergonha dele é tal que o guia diz que ela lava uma falta maior (canto XXX).

Cantos XXXI a XXXIV: o gelo e Lúcifer

No poço que fecha Malebolge, gigantes guardam a borda, e Anteu, que está solto, levanta Virgílio e Dante e os põe no fundo (canto XXXI). O nono círculo é um lago de gelo, o Cocito, onde os traidores estão presos até onde aparece a vergonha: em Caína, os que traíram parentes; em Antenora, os que traíram a pátria, onde Dante pisa numa cabeça e arranca os cabelos de Bocca para saber seu nome (canto XXXII). O conde Ugolino rói a cabeça do arcebispo Ruggieri e conta como morreu de fome, com os filhos, na torre; na Tolomea, frei Alberigo pede que lhe tirem o gelo dos olhos, e Dante promete e não cumpre (canto XXXIII). No centro está Lúcifer, de três rostos, que mastiga Judas, Bruto e Cássio. Virgílio e Dante descem agarrados ao pelo dele, passam o ponto para onde tudo é atraído, onde o corpo vira de cabeça para baixo, sobem por um caminho escuro e saem a rever as estrelas (canto XXXIV).

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