Palavra, frase ou imagem que volta várias vezes ao longo da obra, ligada a um personagem ou a uma ideia, e ganha sentido a cada retorno.
Em Macbeth
O belo é podre, e o podre, belo sabe ser; / Ambos pairam na cerração e na imundície do ar.
A inversão do belo e do podre volta logo na entrada de Macbeth, que diz "Tão feio e tão lindo", e reaparece em Cawdor e em Duncan. A mesma lógica de aparências trocadas percorre a peça inteira.
Ato I: A profecia e a tentação, As três bruxas, em coro
Pensei ter ouvido uma voz a gritar “Dormir, nunca mais! Macbeth é o assassino do Sono, do Sono inocente, do Sono que desenreda o novelo emaranhado das preocupações, do Sono que é a morte rotineira da vida de cada dia, o banho depois da árdua labuta, o bálsamo das mentes afligidas, o prato principal da grande mãe Natureza, o mais importante nutriente do banquete da Vida”. [...] “Dormir, nunca mais! Glamis matou o Sono, e, portanto, Cawdor não mais dormirá. Macbeth não mais dormirá.”
O Sono, perdido aqui com "Dormir, nunca mais!", volta ao longo da peça: nos pesadelos do rei no Ato III e no sonambulismo de Lady Macbeth. A imagem retorna e ganha sentido novo a cada aparição.
Ato II: O assassinato de Duncan, Macbeth
Nem todo o Oceano do grande Netuno será capaz de lavar definitivamente este sangue de minhas mãos? Não, pelo contrário: estas minhas mãos é que tingirão de encarnado os múltiplos mares, transformando em vermelho o que é verde.
O gesto de lavar as mãos aparece em três momentos: Lady Macbeth diz que um pouco d'água basta, Macbeth pergunta se um oceano bastaria e, no Ato V, ela, dormindo, não consegue limpar nada. A imagem ganha sentido a cada volta.
Ato II: O assassinato de Duncan, Macbeth
Mesmo assim, ainda há aqui uma mancha. [...] Sai, mancha maldita! Sai, estou dizendo. Um, dois... ora, mas então é este o momento de se fazer a coisa. O Inferno é tão escuro! Que vergonha, senhor meu marido! Que vergonha: um soldado, e com medo? Haveríamos de ter medo do quê?
A mancha de sangue nas mãos volta aqui, invertida: no Ato II, Macbeth perguntava se o oceano as lavaria e ela dizia que um pouco d'água bastava. Agora é ela quem não consegue limpar nada.
Ato V: Sonambulismo, Birnam e a queda, Lady Macbeth
ele começa a sentir que seu título pende, frouxo, sobre sua pessoa, como o manto de um gigante sobre um ladrão nanico
A imagem do manto que não serve volta: Macbeth já recusara o título de Cawdor como roupas emprestadas, e Duncan vestia o seu manto real com humildade. Cada retorno reforça que o poder tomado pelo crime não lhe cabe.