O que é
O sangue de Duncan que fica nas mãos de Macbeth e de Lady Macbeth e que nenhuma água leva embora. É a marca física do crime, e a peça a faz passar de ferida do marido, na noite do assassinato, a mancha da mulher, na noite do sonambulismo.
Onde aparece
Na cena 2 do Ato II, Macbeth olha as próprias mãos e pergunta se o oceano inteiro as lavaria. Lady Macbeth entra, diz que as mãos dela estão da cor das dele, mas que se envergonha de ter um coração tão claro, e manda o marido se retirar: um pouco d'água os limpará deste ato.
Macbeth:Nem todo o Oceano do grande Netuno será capaz de lavar definitivamente este sangue de minhas mãos? Não, pelo contrário: estas minhas mãos é que tingirão de encarnado os múltiplos mares, transformando em vermelho o que é verde.
Na cena 3 do Ato II, o sangue é posto em outros: Lennox diz que os camareiros tinham as mãos e as caras marcadas de sangue, e Macbeth, ao explicar por que os matou, descreve Duncan com a pele prateada pelo próprio sangue dourado.
Na cena 4 do Ato III, o sangue volta no rosto do assassino de Banquo, que Macbeth recebe quase com alívio: melhor que esteja ali do que nas veias de Banquo. Na mesma cena, depois do fantasma, ele diz que está atolado em sangue a tal ponto que não pode avançar nem recuar.
Macbeth:Há sangue no seu rosto. [...] Melhor assim, esse sangue manchando tua pele e não nas veias dele correndo. Está ele liquidado?
Na cena 1 do Ato V, é Lady Macbeth quem não consegue se lavar: sonâmbula, esfrega as mãos por um quarto de hora, vê uma mancha que não sai e diz que nem todos os perfumes das Arábias perfumarão aquela mãozinha.
Lady Macbeth:Mesmo assim, ainda há aqui uma mancha. [...] Sai, mancha maldita! Sai, estou dizendo. Um, dois... ora, mas então é este o momento de se fazer a coisa. O Inferno é tão escuro! Que vergonha, senhor meu marido! Que vergonha: um soldado, e com medo? Haveríamos de ter medo do quê?
O que significa
O sangue conduz a peça por uma inversão. Na cena 2 do Ato II é Macbeth quem não suporta as mãos, e Lady Macbeth quem acha que um pouco d'água resolve. Na cena 1 do Ato V é ela quem não consegue se limpar, e o que dizia que a água resolvia a peça mostra que a água não resolve.
O gesto de lavar as mãos aparece em três momentos: ela manda lavar na noite do crime e diz que um pouco d'água limpa, ele pergunta se um oceano inteiro lavaria, e ela, dormindo, esfrega as mãos sem resultado. A frase da cena 2 do Ato II, um pouco d'água, e a da cena 1 do Ato V, estas mãos nunca estarão limpas, são da mesma personagem e são incompatíveis, e o Ato V existe para desmentir o II.