Dizer uma coisa por meio de outra, sem palavra de comparação: em vez de dizer que algo é como outra coisa, diz-se que é. A imagem transfere para o assunto as qualidades da coisa com que foi identificado.
Em Macbeth
Vinde vós, espíritos que sabem escutar os pensamentos mortais, liberai-me aqui de meu sexo e preenchei-me, da cabeça aos pés, com a mais medonha crueldade, até haver ela de mim tomado conta. [...] Vinde vós aos meus seios de mulher e sugai meu leite, que agora é fel, vós, espíritos servis e assassinos
Ao dizer que o seu leite "agora é fel", ela une ternura e veneno numa só imagem. O que alimentaria um filho vira amargura, e a imagem mostra que ela pede uma mudança de natureza.
Ato I: A profecia e a tentação, Lady Macbeth
Pensei ter ouvido uma voz a gritar “Dormir, nunca mais! Macbeth é o assassino do Sono, do Sono inocente, do Sono que desenreda o novelo emaranhado das preocupações, do Sono que é a morte rotineira da vida de cada dia, o banho depois da árdua labuta, o bálsamo das mentes afligidas, o prato principal da grande mãe Natureza, o mais importante nutriente do banquete da Vida”. [...] “Dormir, nunca mais! Glamis matou o Sono, e, portanto, Cawdor não mais dormirá. Macbeth não mais dormirá.”
O sono vira "o banho depois da árdua labuta", "o bálsamo das mentes afligidas" e "o prato principal" do banquete da Vida. Essas imagens empilhadas mostram o tamanho do que Macbeth perdeu: o descanso que alimenta e cura.
Ato II: O assassinato de Duncan, Macbeth
Se assim for, pelos herdeiros de Banquo aviltei-me! Em prol da causa deles assassinei o nobre Duncan! Rancores derramei no cálice de minha paz, tão-somente por eles [...]
"Rancores derramei no cálice de minha paz" transforma a paz numa bebida que o crime envenenou. A imagem do cálice contaminado mostra que Macbeth sente ter estragado a própria tranquilidade por causa dos filhos de Banquo.
Ato III: O rei dominado pelo medo, Macbeth
O que fizemos foi cortar talhos na serpente; não a matamos. [...] Melhor seria estar com os mortos a quem nós, sequiosos de uma paz nossa, mandamos para a paz eterna, do que deitar com essa tortura da mente, num êxtase inquieto.
Macbeth chama de "serpente" o perigo que o crime não eliminou: foi cortada em "talhos", mas não morta, e volta a ser ela mesma. A imagem mostra que Banquo, Fleance e o medo seguem vivos.
Ato III: O rei dominado pelo medo, Macbeth
Ele não tem filhos. – Todos os meus lindos rebentos? Disseste “todos”? – Ah, que abutre, que demônio, que ave de rapina! – Todos? Mas como pode ser? Todos os meus mimosos filhotinhos? E a fêmea-mãe, todos com uma única e cruel arremetida?
Macduff chama Macbeth de "abutre", "demônio" e "ave de rapina", e os filhos de "filhotinhos", e a mulher de "fêmea-mãe". A imagem de caça e presa mostra a crueldade do ataque a uma família indefesa.
Ato IV: Profecias enganosas e massacre, Macduff
Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. [...] A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado.
A vida vira "uma sombra que caminha" e "um pobre ator que se pavoneia" no palco, de quem "não se escuta mais" a voz. As imagens do teatro esvaziam a existência de peso, e Macbeth fala assim porque perdeu o sentido do que conquistou.