Quem é
Mulher de Macbeth e senhora do castelo de Inverness, onde o rei Duncan vai dormir. É quem dá nome ao que o marido deseja: lê a carta em que ele conta o encontro com as bruxas, conclui que a natureza dele é boa demais para o caminho curto até a coroa e toma para si o plano da noite. Fala em nome da crueldade, invoca espíritos para que a esvaziem de piedade e responde a cada hesitação dele com a acusação de covardia. Mas é também a que cobra o preço mais surpreendente: o crime lhe custa o sono e, ao que se diz, a vida, e a peça a devolve ao palco sonâmbula, esfregando uma mancha que ninguém mais vê.
Trajetória
Na cena 5 do Ato I, Lady Macbeth lê a carta do marido, acha-o pleno demais do leite da bondade humana: não lhe falta ambição, falta-lhe a maldade que deveria acompanhá-la. Ao saber que Duncan dormirá ali, invoca espíritos que a livrem do sexo e a preencham de crueldade. Quando Macbeth chega, assume o comando: ele deve parecer inocente e deixar com ela o plano da noite.
Lady Macbeth:Vinde vós, espíritos que sabem escutar os pensamentos mortais, liberai-me aqui de meu sexo e preenchei-me, da cabeça aos pés, com a mais medonha crueldade, até haver ela de mim tomado conta. [...] Vinde vós aos meus seios de mulher e sugai meu leite, que agora é fel, vós, espíritos servis e assassinos, seja onde for que, em vossa invisível matéria, atendeis às vis turbulências da Natureza.
Na cena 6 do Ato I, recebe o rei com palavras de humildade e serviço, e ele, que pergunta pelo anfitrião, deixa-se conduzir por ela para dentro. Na cena 7 do Ato I, é ela quem desfaz o recuo de Macbeth: acusa-o de covardia, desafia sua virilidade, lembra que foi ele quem lhe falou do plano e o expõe, embebedar os camareiros e pôr neles a culpa. Ele recua dizendo que o rei o honrou (as outras razões, parente, súdito e anfitrião, ele as pesa sozinho, antes de ela entrar), e ela responde com um único argumento: recuar é ser covarde.
Na cena 1 do Ato II, Banquo conta a Macbeth que o rei mandou um brilhante a ela, nomeando-a graciosíssima anfitriã, na mesma noite em que ela prepara o crime. Na cena 2 do Ato II, espera aflita, depois de drogar os camareiros e deixar as adagas à vista, e confessa que teria feito ela mesma o ato, não lembrasse o rei tanto o seu pai quando dormia. Quando Macbeth volta abalado, é ela quem leva as adagas, suja de sangue os camareiros e o manda lavar as mãos, dizendo que um pouco de água os limpará. Na cena 3 do Ato II, pede socorro quando o crime é descoberto e é retirada de cena.
Na cena 2 do Ato III, os dois admitem que a coroa não trouxe paz. Ela repete que o que está feito está feito, e perde o lugar que tinha: Macbeth já decide sozinho e lhe pede que seja inocente até aplaudir. Na cena 4 do Ato III, tenta acobertar o ataque no banquete, o repreende por covardia diante do fantasma de Banquo, com a mesma pergunta de que se serviu na cena 7 do Ato I, e despacha os nobres.
Na cena 1 do Ato V, ela reaparece sonâmbula, com uma vela, esfregando as mãos e murmurando sobre sangue, Duncan, Banquo e a esposa de Macduff. O Médico, que a observa com uma Dama, conclui que o caso foge à medicina.
Lady Macbeth:Mesmo assim, ainda há aqui uma mancha. [...] Sai, mancha maldita! Sai, estou dizendo. Um, dois... ora, mas então é este o momento de se fazer a coisa. O Inferno é tão escuro! Que vergonha, senhor meu marido! Que vergonha: um soldado, e com medo? Haveríamos de ter medo do quê?
Na cena 5 do Ato V, Macbeth ouve gritos de mulheres e Seyton lhe diz que a rainha morreu. Na cena 7 do Ato V, Malcolm menciona de passagem a diabólica Rainha, que, como se acredita, tirou a própria vida com as próprias mãos.
Temas que encarna
Ela é a prática do casal: drogou os camareiros, deixou as adagas, devolveu-as ao quarto, disse que um pouco de água os limparia. E mesmo assim, na cena 2 do Ato II, admite que não matou o rei porque ele lembrava o pai dela. O ato custa algo a quem finge não temer, e é o que anuncia a Culpa que ela vai carregar sozinha.
Os papéis se invertem. Na cena 7 do Ato I, é ela quem empurra e ele quem hesita, e na cena 2 do Ato III é ele quem decide e ela quem repete fórmulas de consolo. Na cena 4 do Ato III, usa contra a visão dele a mesma pergunta, se ele é homem, que usou para levá-lo ao primeiro crime, e agora ela não funciona.
A Ambição de Lady Macbeth é pelo marido, e é por isso que o texto a mostra mais forte que ele no começo e mais frágil no fim. Ela quis a coroa para os dois, e quando o crime exige outros crimes ela fica de fora do plano, sem lugar na peça que ajudou a pôr em marcha.
O que ela mandava o marido deixar de lado volta nela como sintoma: dorme com uma luz acesa, vê uma mancha que não sai, revela dormindo o que calava acordada. O Médico reconhece que o mal é do espírito, não do corpo. E a peça termina sem uma palavra de compaixão por ela, só a menção de passagem do novo rei: o Poder que ela ajudou a tomar passa adiante sem lhe dar um lugar.
Relações
- Macbeth: o marido que ela empurra ao crime na cena 7 do Ato I, e que a deixa para trás a partir da cena 2 do Ato III.
- Duncan: o rei que ela recebe com humildade na cena 6 do Ato I e que, dormindo, lhe lembra o pai na cena 2 do Ato II.
- Banquo: o convidado cuja morte ela tenta cobrir no banquete da cena 4 do Ato III, e cujo nome volta em sua boca na cena 1 do Ato V.
- Macduff: o barão cuja esposa ela cita na cena 1 do Ato V, dormindo, entre os mortos que a assombram.
- Malcolm: o novo rei que, na cena 7 do Ato V, a menciona só de passagem, sem uma palavra de compaixão.